domingo, 26 de março de 2017

Abaixo-assassinado II



Alguns pontos prévios: não foi a professora agredida pela encarregada de educação que acompanhou o promotor da ação na “greve de zelo”; essa docente retomou o serviço após o feriado e pediu que a iniciativa não fosse concretizada; a diretora sabe, por escrito, desde que o professor foi colocado na escola, que ele jamais desempenhará cargos de direção; na sequência do que vai ser contado, o “instigador” decidiu inscrever-se no próximo concurso de mobilidade interna.
Não há heróis nem cobardes nesta história, apenas pessoas comuns, professores de uma escola — uns macerados pela resistência, outros massacrados pela obediência —, com virtudes e fraquezas, como seres humanos que são. A narrativa só tem interesse porque é paradigmática, representativa das lideranças e do estado de espírito reinante nas nossas escolas. Poderia ter ocorrido em qualquer escola pública do país.
Na sexta-feira, dia 9 de dezembro, no turno da tarde, já quase na hora de entregar o abaixo-assinado na direção, o professor “agitador” soube que a diretora enviara, na véspera, um e-mail a todos os docentes. A surpresa foi enorme, pois nada recebera. Todavia, o problema foi imediatamente identificado — falha na constituição do grupo do Gmail — e resolvido. Pouco tempo depois, o endereço foi readicionado ao grupo e a missiva chegou ao destinatário. Nela se expressava pesar pelo sucedido e se prometia tomar medidas para, na medida do possível, impedir tais ocorrências no futuro. Correto! No entanto, apesar da informação veiculada e das múltiplas ações de sensibilização concretizadas ao longo desse dia, por diversos protagonistas, docentes e não docentes, trinta e nove professores tinham assinado o documento, prometendo levar a cabo a jornada de indignação.
Durante o fim de semana, sem espanto, as desistências começaram a cair, uma a uma, na caixa de correio eletrónico. Embora nem todos os desistentes o tenham feito, os que o fizeram (por respeito a quem liderou o processo) diziam terem sido sensíveis aos argumentos da diretora, tendo alguns remetido também para as palavras do presidente do conselho geral, o que não era muito compreensível, uma vez que após a leitura do referido e-mail, enviado durante o feriado de 8 de dezembro, todos tinham reafirmado, por escrito, a sua posição inicial.
Já a semana seguinte quase morria quando o promotor da ação soube, de modo absolutamente fortuito, que outro e-mail havia sido enviado a todos os signatários, na sexta-feira, depois da entrega do documento na direção. Estranhamente — muito estranhamente — voltara a ficar de fora. Soube ainda que o presidente do conselho geral (a primeira a pessoa a quem a ideia fora apresentada, tendo manifestado apoio imediato e sugerido ao docente a redação do abaixo-assinado), arrependido, também tinha levado a cabo semelhante iniciativa.
Mais tarde, em casa, ávido de conhecer os decisivos argumentos que tinham conseguido demover tantas e tão boas almas, abriu a milagrosa missiva, que uma alma caridosa lhe reenviara. Falava, entre outras coisas, da alegria de quem procurava o escândalo, que poderia ser alimentada à custa do bom nome da escola; falava ainda do derrubar de uma instituição que muitos, durante muito tempo e com muito esforço, tinham conseguido edificar; falava… enfim dos evidentes e desastrosos malefícios daquela ação aparentemente inofensiva e solidária.
No peito do atónito leitor, subitamente, todas as estrelas se extinguiam, todas as pontes ruíam, todo aquele mundo se fazia noite, noite de solidão e de silêncio pesado e frio. Era o átrio do seu fim naquele lugar, que já considerava seu. Na verdade, o seu incerto futuro — talvez o seu eterno retorno — (re)começava fatalmente ali, naquele instante deleteriamente revelador. E o travo de dor não vinha apenas do miolo das palavras lidas, vinha sobretudo do acolhimento que elas tinham merecido no peito e no intelecto de tanta gente. Afinal, não tinham sido sensíveis ao pesar nem às medidas primeiramente anunciadas, mas… ao conteúdo da segunda comunicação, que lhes fizera compreender o mal que, involuntariamente, talvez ingenuamente, estavam a causar à escola. E esse mal tinha um progenitor, um progenitor que, tacitamente, consciente ou inconscientemente, todos tinham reconhecido.
É perfeitamente suportável o fel de certas frases, sobretudo quando são fatos que não nos servem. Já o mesmo não acontece quando um coletivo, de forma tão silenciosamente eloquente, se expressa. A escola ver-se-á livre de um lobo. Talvez o misericordioso Destino se junte à causa da paz no mundo e lhe envie uma pacífica ovelha.
Termina assim a longa carta que escreveu, nesse mesmo dia, aos colegas:
«Quando a notícia da minha saída for conhecida, repetir-se-á, uma vez mais, a cadeia difamatória injusta: antes mesmo de eu me apresentar na nova escola, já alguns dos meus futuros colegas julgarão conhecer-me, porque o mesmo tipo de gente que, num passado próximo, tratou de semear receios, preconceitos, distâncias, friezas e más vontades, vai continuar a estender-me a passadeira negra. Eu continuarei a ser o mesmo, aquele que vós (agora) conheceis. Permanecerei discreto até ao dia em que uma crise se abater sobre alguém. Nessa altura, erguer-me-ei como um lobo e darei o corpo às balas. Depois, ficarei novamente só, e terei de beber, novamente, todos os cálices de fogo. E terei, uma vez mais, de ir embora, por se me tornar o chão insuportável. É este o fado dos homens como eu, mas também é este (não sei se feliz ou se infelizmente) o miolo que faz a textura de quem escreve ou sonha ser escritor.
Na verdade, foi em mim que os encarregados de educação vieram bater.»

3 comentários:

  1. Triste muito triste. A solidariedade docente está pelas ruas da amargura.
    E naquela escola haverá alguém capaz de ensinar "cidadania". Será bom de se ver, vermes rastejantes a perorar sobre cidadania, não sei se ria se chore.
    Abraço solidário

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  2. Sim, é triste, Luís! É por isso que eu não posso ficar. Porém, como vês, nem tudo é mau: a escola vai ver-se de livre de um professor problemático e muito perigoso. Isto, para não falar da incompetência.

    Dizem que Deus escreve direito por linhas tortas. Aqui está a prova.

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  3. Somos todos humanos, Luís, e todos com defeitos e virtudes.

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