quinta-feira, 27 de julho de 2017

Gato malhado do ensino



Apesar de ser um tipo solidário, capaz de pôr os interesses do coletivo — das pessoas que amo, ou simplesmente de um/uma colega que, subitamente, precise de ajuda — acima dos meus, sinto-me muitas vezes como aquele gajo que um certo tipo de paternalismo define como má companhia. Já na minha juventude era assim.
Quando era mancebo, dado a namoricos (enfim, um trabalho árduo a que eu nunca virei a cara), os pais das moçoilas sempre me detestaram (não sei porquê). Como sempre fui bom aluno, pacato, cordato… só via explicação para tal atitude no relevante defeito de ser pobre, uma vez que de bonitezas/fealdades eles nada percebiam. Mas… o que é facto é que, invariavelmente, com uma unanimidade digna de uma boa ditadura, não iam com a minha cara. Como amigo da família, tudo bem, mas quando passava à condição de namorado da filha… Não sei que bicho lhes mordia! Ficavam possessos! Passei as passas do Algarve com alguns presunçosos pais de moças bonitas. Dois casos foram autênticas novelas que fizeram, durante anos, as delícias do antigo Facebook rural. 
Atualmente, em contexto radicalmente diferente (profissional), continuo a sentir-me aquele gajo que os papás e as mamãs das escolas veem como má companhia, já não por ser pobre (mau fora!), nem sequer de espírito, mas por ser má influência para o professorado acomodado e obediente. Ou porque alguém, direta ou indiretamente, lhes dá a entender que não sou visto com bons olhos ou porque as pessoas percebem que não lhes sairá a lotaria escolar, se forem vistas muitas vezes comigo, a verdade é que sou, para quase todos os efeitos, como uma autêntica doninha fedorenta. Com o tempo, sou eu mesmo que me afasto das pessoas, para não lhes arranjar problemas. Sei que ninguém ameaça ninguém com maus horários, com servicinhos impróprios para consumo, com turmas de elite, com más vontades e tolerância zero… mas estou convencido de que, no subconsciente da malta, esse bloqueio é ativado (e algo semelhante acontece na blogosfera, não tenho dúvidas).
Há, porém, uma diferença colossal entre as moçoilas do meu passado (que Deus as faça felizes!) e os moçoilos e moçoilas com quem trabalho no presente. As primeiras eram detentoras de uma visão muito diferente da dos papás (porque tinham caráter e bom gosto), e não se deixavam demover nem com ameaças de deserdação; os segundos… já nem sei muito bem o que pensam. A verdade é que, no dizer, vão concordando comigo, mas no fazer... é que são elas! Só fazem o que o papá  (ou a mamã) quer.  
Profissionalmente, já me convenci de que vou ficar encalhado ad eternum, até no escalão em que me encontro.  Sou uma espécie de gato malhado, ou melhor, de lobo malhado do ensino. Tal como o passado... que se lixe!

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Realidades adulteradas


1. Logo que António Costa voltou de férias e se reuniu com os chefes militares, o país ficou a saber que o furto de material bélico em Tancos não foi grave. A António Costa, sagaz que é, bastou pedir ao Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, ao Chefe do Estado-Maior do Exército, ao ministro da Defesa e ao ministro dos Negócios Estrangeiros, precipitados que foram, que lessem o duplicado da guia de transporte, deixado pelos ladrões na Porta d’Armas do aquartelamento de Tancos, para poderem concluir que tudo estava fora de prazo e nem para palitar dentes servia. Dir-se-á que António Costa substituiu a metáfora das vacas voadoras pela metáfora dos moluscos contorcionistas, isto é, o optimismo irritante pelo realismo conveniente. Um senão, que não é pequeno: para se redimir e tornar o roubo poucochinho, Costa rasteirou Marcelo. Marcelo, que nos disse que a coisa era grande antes de ele, Costa, tempestade passada, reaparecer para nos dizer que a coisa era pequena. Marcelo, que foi a Tancos quando ele, Costa, estava a banhos. Marcelo, que respondeu quando ele, Costa, desapareceu. Marcelo, que não é António José Seguro, como Costa sabe.
2. O Conselho Nacional de Educação selecionou 25 dos 713 agrupamentos escolares existentes para produzir um estudo que, em tese geral, deixa a ideia de que agrupar escolas foi uma boa política. Sob a epígrafe Organização escolar: os agrupamentos, a publicação que divulga o estudo tem aspectos curiosos. A dado passo, reduz as críticas feitas ao tamanho dos agrupamentos à condição de “mitos”, já que agrupamentos com mais de 3000 alunos apenas existem 26, número que, lê-se, significa 4% do universo em análise. Com este modo de colocar o problema, passa-se, via capciosa indução subliminar, a ideia de que são reluzentes todos os agrupamentos abaixo dos 3000 alunos. Sucede que são muitos os que pensam (e eu pertenço ao grupo) que arrebanhar sob a mesma direcção escolas fisicamente distantes, com alunos de faixas etárias dos quatro aos dezoito anos, tenham no conjunto mais ou menos que 3000 alunos, foi e é um crime pedagógico, usurpador da dimensão personalística que toda a escola e todo o ensino devem ter.
Outra curiosidade, para ser generoso no atributo, é que o estudo considera, como acabo de referir, que 4% dos agrupamentos tornam mitológica uma crítica. Mas valida-se a si próprio como estudo, quando assenta exactamente numa amostra de igual dimensão, isto é, 4%. Linhas acima, 4% é insuficiente. Linhas abaixo, 4% é suficiente.
Não permite o espaço alinhar argumentos, que já usei em artigos precedentes, nem invocar com detalhe acontecimentos que contradizem o que o estudo concluiu. Mas entendamo-nos e não adulteremos a realidade do dia-a-dia das escolas: os agrupamentos, e com eles o modelo de gestão unipessoal, foram e são instrumentos de centralização e controlo político, da responsabilidade do PS e do PSD. Aumentaram a indisciplina, promoveram a proletarização dos professores, afastaram tenebrosamente a pedagogia do arco da decisão que importa e ajudaram a pôr números onde deviam estar pessoas e simples estatística onde devia estar complexa avaliação educacional.
3. Terminados os exames nacionais, será que os seus resultados permitem extrair conclusões sobre o que o sistema de ensino acrescentou ou não ao conhecimento dos alunos? Dificilmente. Inclino-me para admitir que os avanços e recuos, estatisticamente invocados, se devem antes à variação do grau de dificuldade das respectivas provas. Tanto no 9.º como no 12.º ano, as pequenas oscilações verificadas não permitirão, sensatamente, ter leitura diferente. A propósito, será bom recordar que, há um par de anos, numa conferência em Coimbra, o próprio presidente do Conselho Científico do IAVE afirmou que o ministério “encomendava” o resultado dos exames com o intuito de manter a estabilidade de uns anos para os outros e que as equipas que concebem as provas conseguem produzi-las para as notas que queiram. A propósito, seria bom não esquecer que houve este ano fraude grave, escandalosamente inconsequente até agora.
In Público, 26/07/2017

Sonhos, visões e faisões



Continuo a pedir encarecidas desculpas pelos eventuais transtornos que estou a causar a quem já tinha investido num fato negro (os mais chegados), numa gravata de luto, numa coroa de flores, num epitáfio com sainete fúnebre, num requiem qualquer… Guardem para mais tarde, por favor, que eu (infelizmente) não vou ficar cá para semente.

O Justino vai deixar o CNE sem ver o seu sonho concretizado (o fim d'arre tenções). Mas, tal como Moisés, não fica muito longe da sua promised land, pois já estamos nos arrabaldes. O mesmo (embora um pouquito pior) acontecerá, dizem as tábuas, com o Lima, cujo sonho — anulativo com dois semestres — está agendado para o Dia de S. Nunca, depois do jantar e antes de ir para a cama.


Diz aquele que fala por todos os diretores — que tudo sabem sobre o que pensam e querem os professores — que com um longo semestre pela frente (e outro por trás, como é óbvio) os alunos têm mais tempo para recuperarem os atrasos evidenciados na primeira pauta. Non capisce niente! Então?!  Toda a gente sabe — a sociedade inteira, inteirinha — que os alunos recuperam de forma absolutamente incrível em apenas um mês e meio (ou dois, vá lá c’os diabos!). Basta comparar as notas do segundo período com as do terceiro. É cá cada milagre!!! Para quê, portanto, tornar tão fastidiosa a prodigiosa recuperação que os catraios conseguem fazer? Querem desmotivá-los, é?
Pois… tenho cá para mim (saber empírico, só de experiência feito) que os diretores são a grande mola impulsionadora do sucesso. Não vale a pele mexer em mais nada, basta mantê-los, que eles sabem bem como fazer as coisas. Aliás, a ideia dos dois semestres (embora peregrinamente extraterrestre) talvez seja motivada por essa árdua atividade milagreira. Espremer professores não é a pera doce que quase tolos imaginam! Dá muito trabalho e mais chatices ainda!

Eu só concordo com a ideia dos dois semestres, se for non stop, sem férias nem interrupções letivas. Vá lá… ainda aceito os fins de semana, para arrumar a casa e... sabe-se lá o quê!

terça-feira, 25 de julho de 2017

Resolvi não falecer



Ainda há no meu alforge alguns uivos por soltar, e quero soltá-los com rosto e com assinatura. Por outro lado, mantenho aquela sensação (megalómana talvez) de que, sem mim, esta coisa disforme a que sói chamar-se “luta dos professores” (não riam) fica demasiado mole, demasiado frouxa, sensaborona, nem carne nem peixe, nem preto nem branco… E também se dá a estranha coincidência de, na minha ausência (cacofonia voluntária) me acontecerem coisas terríveis, sucedendo algo muito similar à Escola Pública. É verdade (pelo menos a primeira parte)!
Quando desativei o Bravio, o servidor da minha escola começou a discriminar-me. Removeu-me do grupo que recebeu um e-mail muito importante da diretora, cujo objetivo era demover os professores de uma ação de solidário protesto que eu organizara. “Corrigido” o erro, eis que… nesse mesmo dia, horas depois, o raio do servidor voltou a ignorar-me, não me enviando outro e-mail dirigido a todos os que tinham subscrito o abaixo-assinado e no qual eu era visado, ainda que de forma subtil (aconteceu o mesmo com idêntica missiva enviada pelo presidente do conselho geral). Na passada sexta-feira (a mais de um mês do fim do vínculo), precisamente no dia em que me apresentei na escola onde fui colocado, o raio do servidor decidiu (assim, sem mais nem menos), desativar a minha conta de correio institucional. Perdi tudo o que lá tinha, e também fiquei impossibilitado de enviar aos meus colegas, de forma digna, alguns documentos importantes. Tive de andar a pesquisar no meu telemóvel e a pedir favores. Será que o servidor soube que eu fora bem recebido e que me sentira em casa? Será que teve ciúmes? Admito, mas escusava de escacar a louça toda, porra!
A nível nacional... quase a mesma coisa. Alguns bloggers (pegando em bandeiras que me são caras) desataram a falar do medo dos professores e do modo como são facilmente levados, enganados… O que é estranho, muito estranho, é falarem do medo a medo. Assim não se vai a lado nenhum. É preciso determinação, clareza, afirmação, posicionamento inequívoco, caros colegas: “Sou a favor disto!”; “Sou contra aquilo!”… Tibieza e bipolaridade a mais e ousadia e risco a menos. É por isso, só por isso, que outras classes profissionais vão ganhando e nós somos comidos, papados e gozados. Somos a vaca mansa do regime. Aos desistentes que estão nas escolas (a vastíssima maioria) dirigem-se as palavras hesitantes de quem prega. Ninguém liga aos professores, ninguém lhes pede opinião, nem mesmo em assuntos intimamente relacionados com a prática didática. Porquê? Porque no nosso lugar, dentro de nós, já não mora ninguém! Desistimos de ser quem somos para sermos quem os interesses instalados querem que sejamos. É lógico que não nos ouçam nem nos respeitem.
Como se isto não bastasse, certas figuras (negras, digo eu) voltaram à seara. É o caso óbvio do pai dos diretores, novamente acolitado pelos pais dos pais. Quer o ano letivo dividido em dois semestres. Ah ah ah! Enfim, é a visão administrativa, meramente administrativa, pauperrimamente administrativa… própria de quem está de fora. Não admira, pois, que outros forasteiros o apoiem (refiro-me a todos os que não trabalham dentro daquele cubinho mágico). O Lima está tão vidrado nesta nefasta fantasia, que até se esqueceu de que, ainda há dias, propôs ao Ministério do século XXI que não inventasse e que acabasse com os experimentalismos. Só ele é que pode. Mal por mal, prefiro que seja o Ministério a inventar!!! Os seus francoatiradores não têm a pontaria nada afinada.
Enfim, caros colegas (e não só), vim para apresentar reclamação por certas exéquias do meu suposto funeral.  As notícias da minha morte eram manifestamente exageradas.

Algo está para acontecer no ERAMÁ




Logo começo a explicar. 
Não trarei a paz na bainha!

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Carta aberta aos meus alunos do 7.º F



Estimados alunos,
Tal como previa (e como era meu desejo), deixarei de ser professor do quadro da André Soares no final de agosto. Sobre os motivos, não direi nem mais uma palavra, pois estou certo de que os conheceis. Tenho também a convicção de que sabeis que, numa situação de normalidade, jamais vos deixaria “a meio” do caminho (se não fosse esse o vosso desejo) e que tudo faria para vos levar ao melhor porto. Mas… enfim, a vida é assim mesmo: tem circunstâncias que são superiores à nossa vontade e princípios que, depois de adotados e entronizados, reinam em nós, fortalecendo o nosso caráter. Têm, por vezes, um custo elevado, mas são sempre dignificantes e honrosamente diferenciadores.
Sabeis que, por vós, levo o coração (re)partido, pois sois, de mim, a parte que fica. Ainda hesitei, em tempo útil, mas… para além de um eventual recuo me fazer perder o crédito da palavra dada e publicamente afirmada, seria um ato de pretensioso egoísmo: como se admitisse que, sem mim, os vossos amanhãs tivessem de ser escuros. Grande tolice! Na verdade, depois de mim, virá (de certeza) alguém mais competente do que eu, talvez mais jovem do que eu, que saberá cativar-vos e ensinar-vos melhor do que eu. Essa é — dou-vos a minha palavra de honra — a parte que me deixa mais tranquilo. A parte restante, como facilmente depreendereis, é coisa minha: da minha saudade, do afeto, da consciência profissional…
Mas… falemos de coisas mais “substantivas”(em jeito de balanço): o que levo e o que espero ter deixado.
Levo comigo um extraordinário grupo de alunos num tesouro de memórias: a vossa educação, os vossos olhares limpos e transparentes; a vossa entrega, a constante vontade de superação, de fazer sempre melhor, de alcançar os melhores resultados; a vossa necessidade (tão estimulante!) de querer saber os porquês de tudo; as aulas de apresentação dos trabalhos (quase sempre acima das expectativas); a aula em que apareci trajado de palhaço e que acabou por decorrer com “toda” a normalidade, graças ao vosso respeito; o final de aula em que “vesti” a pele de escritor; a derradeira aula, de dramatização (que só aconteceu porque vós fizestes mesmo questão); as aulas de sexta-feira à tarde (“fora da caixa”) e a excelente disposição que aí reinava, apesar do tema ser a gramática; as vossas auras flamejantes, no dia em que me informastes que uma professora tinha acabado de ser barbaramente agredida… Tantas lembranças!
Aprendi muito convosco, fiz muitos materiais pedagógicos para poder corresponder ao vosso estímulo… tornei-me melhor professor. E diverti-me muito na vossa companhia. Alguns momentos de irritação? Talvez — um aqui, outro ali — mas, como a minha capacidade de retenção de recordações já não dá para tudo, vou guardando o melhor (que ocupa imenso espaço).
Quanto ao que espero ter deixado, os conhecimentos ocupam o derradeiro lugar. Não faltará quem vos ensine melhor do que eu. Convosco, é fácil lecionar. Por isso, espero merecer um lugar digno na vossa memória pelo exemplo dos meus atos: pela pontualidade, pela assiduidade, pela entrega à profissão, pela disponibilidade total para os alunos, pelo rigor na preparação das aulas, pela humildade, pelo afeto, pela solidariedade incondicional (quando foi necessário), pela verticalidade, pela integridade… Se deixei pelo menos uma destas sementes em cada um de vós, então… sou um professor realizado. Deixei o melhor que o ensino tem. O resto… está nos manuais.
Quanto ao próximo ano letivo, não preciso de vos dizer absolutamente nada, pois sei que continuareis a dar o vosso melhor, que é efetivamente excelente.
Termino com o obrigatório pedido de desculpas, por divergir do trilho com a peregrinação em curso. Não é bom mudar frequentemente de professor. Todavia, estou convicto de que sabereis compreender e aceitar as minhas razões.
Até sempre, inesquecíveis alunos!
Professor Luís Costa

PS – Esta missava será o último artigo do meu blogue — Eramá — de cuja existência (doravante efémera) só hoje vos dou conhecimento.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Primeira despedida



Cumprindo o que aqui disse há dias, em linha reta, o encerramento do Eramá (e tudo o que ele representa) está agendado para muito breve. Amanhã publicarei o meu último escrito — dedicado aos meus alunos do 7.º F (os restantes eram de 9.º) — de quem vou ter muitas saudades. Quero que sejam para eles as últimas palpitações deste meu estandarte de palavras, que ficarão por aqui a serenar durante três dias, até as tochas se extinguirem. Faço questão que sejam eles os primeiros a lê-las.
Para ti, leitor, é com agradecimento que visto esta despedida. Foi um prazer saber que te desassosseguei, que te acicatei, que te alertei, que te fiz pensar… e que te fiz rir também (e é tão poderoso o riso!). Não será fácil esta ausência, porque tenho de manter uma luta diária contra os meus genes, que me pedem constantemente o contrário da acomodação. Mas… enfim, é uma peleja que trará um pouco mais de paz ao mundo.  
Até sempre!

domingo, 16 de julho de 2017

Dias de fervorosa fé


Estamos nas vésperas da Roda da Sorte para os docentes (andará amanhã ou na terça-feira, segundo dizem os adivinhos acreditados). Portanto, hoje é dia religioso para muita gente.
Enquanto a quase totalidade dos opositores ao concurso está a rezar ao seu santo de eleição para ficar na Escola A ou na escola B, ou não muito longe de casa ou…  no território nacional, os meus opositores (todos docentes) estão divididos, mas convergentes na sua fé, e rezam por mim (não preciso, portanto, de rezar nem de maçar santos que não tenho). Serão (julgo eu) tantos os que rezam para que eu me “amande” dali para fora como aqueles que rezam para que eu não vá parar ao seu quieto paraíso:”Avé Maria, cheia de graça, levai este senhor convosco…!”; “Pai Nosso, que estais no Céu, sacrificado seja este nome… não venha a voz ao nosso reino…”. Vamos lá ver quem tem o santo mais poderoso. Espero, contudo, que não vençam os poucos que rezam à Comadre Morte e ao Mafarrico (os que me odeiam e os que me amam excessivamente)!
Perceberam agora, confortáveis apreciadores dos meus ditos, por que motivo vou ali e já venho? Acabou-se o prazer de estar a comer uvas doces e frescas, enquanto o miserável gladiador, estupidamente, rebola por nós no tórrido círculo da arena! 

sábado, 15 de julho de 2017

Subitamente


Subitamente, percebemos que as palavras acabadas de dizer eram as últimas. Todas as outras — as que esperavam nas intenções e nas promessas —, apesar dos viçosos estames que traziam, eram absolutamente supérfluas, infecundas e inúteis, porque estão… ou fechados… ou secos... ou pútridos os gineceus.
Subitamente, percebemos que é ao silêncio que devemos entregar todas as palavras por dizer; que é no seu ventre imaculado, nos seus leitos de negrura e solidão, que a eloquência germinará até se fazer pura luz. Afinal, basta contemplar o céu em noite escura e limpa para percebermos que todo o universo é assim.
Subitamente… fica um vazio prematuro, porque as palavras por dizer se ausentaram, por terem percebido, subitamente, que eram a derradeira esperança da razão. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Goodbye, Luís Costa!


A decisão está tomada: vou mudar de vida!
Uma década de luta, demasiadas bofetadas, demasiados pontapés, demasiadas mordidelas daqueles a quem quis dar a mão, demasiadas parcialidades, demasiadas perseguições… cuspidelas, escarradelas e algumas facadas no lado esquerdo das costas, com perfuração profunda. Só não me desgrenham os cabelos porque… não é possível. Para quê? Sim, já parti e regressei muitas vezes (e poucos acreditarão que tal não volte a acontecer), mas… um dia…  
Sei que há bloggers da Educação muito mais úteis ao professorado do que eu, mas poucos poderão dizer que são mais ousados, que combatem mais o medo, que encaram o monstro tão de frente. Não são tão quixotescos nem tão estúpidos! É por isso que sofro muito mais retaliações, granjeio muito mais inimizades, muito mais incompatibilidades… É por isso que me estou a transformar num nómada, enquanto outros, muito mais politicamente corretos, conseguem viver um quotidiano muito mais confortável e cordato.
O que mais me dói — bem lá nas profundezas da alma — são as dentadas daqueles por quem mais me dei, por quem mais me expus, por quem saí do meu castelo seguro e confortável, arriscando tudo, sem necessidade absolutamente nenhuma, sem interesse absolutamente nenhum, sem nenhum desejo de protagonismo, sem nenhum calculismo… apenas por solidariedade, apenas pelo sentido de justiça… por puro amor à classe, ao ensino, a uma das mais nobres missões do Estado. E como dou a cara e atuo só, absolutamente só — lá vem a metáfora do lobo solitário — sou um alvo muito fácil. Ostentar medalhas de parcialidade contra mim, impertinência contra mim, de maldade contra mim, de ostracismo contra mim… dá pontos na caderneta de certas simpatias, atrai certas sinergias e talvez algum bónus.
Se o concurso interno responder favoravelmente à minha (contraditória) vontade de sair da escola onde leciono, aproveitarei, de imediato, essa nau para me fazer a esse “prometido” mar pacífico (uma espécie de Ano Novo, nada mais). Vou às catacumbas, arrumo a armadura e penduro a espada. Se tal não acontecer, ainda haverá 0,1% de possibilidades de continuar por aqui mais um mês e pico (só por não haver premência).
Em qualquer caso, jamais deixarei de ser quem sou, embora deixe, em parte, de ser como sou. Serei a mesmíssima pessoa, mas não me levantarei para dar o peito por ninguém. Até aqui, cansei-me muitas vezes (o que abre a porta a um eventual regresso, após o descanso), mas agora estou efetivamente morto para altruísmos suicidas. No entanto, aqui fica uma certeza (importantíssima): jamais erguerei um dedo contra os meus colegas, nem mesmo contra aqueles que me mordem quando os beijo. É também isso que quero dizer quando digo que não deixarei de ser quem sou.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Verdadeiros contratos de autonomia


Os experimentalismos, os modernismos, os vanguardismos, os “finlandismos” e muitos outros “ismos” são tantos e surgem com uma frequência tão frenética e tão vertiginosa (alucinante, mesmo), que já se justifica a existência de uma reserva pedagógica, para salvaguardar determinados métodos, determinadas experiências, determinadas exigências, determinadas posturas, determinados estilos, determinadas verticalidades, que estão em seríssimo risco de extinção. É que… se a coisa der para o torto (na vida real), convém ter alguns espécimes em viveiro.
Em conformidade com o conteúdo do primeiro parágrafo, vou fazer uma proposta revolucionária a… quem de direito. Aproveitando uma figura que já existe, que é muito cool e está na moda — os contratos de autonomia —, proponho o alargamento deste conceito às escolas que queiram continuar a exigir respeito pelos espaços e pelas pessoas, a só passar quem realmente está preparado, a salvaguardar a autonomia pedagógica dos professores, a levar a sério as faltas de presença e as faltas disciplinares, a votar mais para eleger representantes e menos para alterar notas… Enfim, se é de autonomia que se trata, respeitemos também o próprio conceito. Não acredito em autonomias condicionadas a um catálogo de uma só cor e duas ou três nuances. Seria uma espécie de projeto-piloto ao contrário, mas com idêntico sentido revolucionário.

Sim, podem trincar-me!


Depois não digam que eu só gozo com presidentes, ministros, secretários de Estado, diretores...

Afinal as vacas não voam


Seria divertido, não fora uma espécie de vomitório, analisar comportamentos políticos e institucionais ao longo dos tempos. A direita, que ontem gritava a necessidade de reduzir as “gorduras” do Estado e tesourava sem critério tudo o que era público (Educação e Saúde que o digam) apresenta-se agora a protestar com vigor contra a redução do financiamento dos serviços do Estado. O CDS conservador, pouco dado noutros tempos à justiça dos descamisados, é agora o primeiro a exigir demissões, enquanto a tradicional esquerda radical ajeita a gravata da contenção responsável e abotoa com classe o paletó da responsabilidade de Estado. O Ministério Público, esse decantador enigmaticamente vagaroso de processos que poderiam inspirar J. K. Rowling, acaba de fulminar, um ano depois, três secretários de Estado do PS, que aceitaram da Galp uma viagem rapidinha para ver a bola. Talvez possamos agora admitir que um procurador persistente, algum dia, nos venha garantir que a viagem em jacto privado para o Brasil, mais a semana de férias para si próprio e família, que o então primeiro-ministro Durão Barroso, do PSD, aceitou do empresário João Pereira Coutinho, sempre estiveram ética e legalmente separadas da venda da Quinta da Falagueira, que o Estado fez, uma semana depois, ao irmão do generoso amigo de Durão Barroso.
Perante o caos administrativo que deixou 64 mortos e 200 feridos em Pedrogão-Grande, António Costa não deu respostas. Fez perguntas e foi de férias. O que até agora percebemos é que todos os organismos envolvidos negam responsabilidades.
A bagunça dos exames nacionais mais o grave roubo de armamento pesado nas barbas da tropa de elite remeteram António Costa para uma sonora ausência e apenas lhe apagaram o habitual sorriso trocista. O que até agora percebemos é que o grande negociador é um pequeno chefe quando o contexto é de dificuldades e o éthos é de inimputabilidade.
O que aconteceu em Pedrogão-Grande, o que aconteceu em Tancos e o que aconteceu com os exames nacionais é deplorável e inaceitável. Mas o que até agora percebemos é que, afinal, as vacas não voam.
A ligeireza com que o ministro da Educação tratou a fraude do exame de Português, as orientações para subir notas a eito e passar alunos com cinco negativas num currículo com nove disciplinas (é ler as linhas e as entrelinhas do despacho normativo 1-F/2016) cumprem a espiral de despudor e facilitismo que subjaz às directivas do Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar e alinham com a falência da Administração Pública, reflexo natural de uma austeridade que nunca acabou e foi agravada pelo preenchimento de postos de poder por populistas irresponsáveis. Têm os que capturaram o Ministério da Educação culpa directa dos costumados desmandos do IAVE? Naturalmente que não, porque foram outros os criadores da criatura e vários os padrastos e madrastas que a têm protegido. A culpa de Tiago Brandão Rodrigues e João Costa é a de permitirem a execração sumária que o monstro dedica a quem lhes aponta os erros. A culpa que lhes assiste é a de validarem a apologia da asneira.
Apesar de a Matemática ser universalmente havida como ciência exacta, considera o excelso IAVE que um resultado completamente errado está 75% certo, porque os parênteses (cuja omissão na multiplicação é obviamente um erro grosseiro) são simples formalidade. E o ministro, físico de formação e “pedabobo” de ocasião, diz que a coisa não passa de uma diferença de opinião entre o seu instituto e uma sociedade científica.
E assim vamos a caminho dos exames do século XXI, feitos online, só com perguntas fechadas e dispensa de professores para os corrigir, talvez com as respostas previamente distribuídas aos alunos, para garantir a equidade e a ausência de fraudes selectivas.
Viva o modernismo pedagógico, viva a didáctica sobre skate, viva a avaliação progressista, vivam os governantes empreendedores e os directores submissos, abaixo os professores sérios!
in Público, 12/07/2017



terça-feira, 11 de julho de 2017

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Retenção proibida


Quem não sabe (ou já não se lembra) que a origem de uma boa fatia do “insucesso acrescentado” está na já vetusta decisão de “proibir” a retenção dos alunos no primeiro ano de escolaridade? A troco de uns não sei quantos traumas, à conta de apoios que nunca chegaram efetivamente, os alunos foram sendo empurrados para a frente. Os professores viram a heterogeneidade das turmas a aumentar, viram as próprias turmas tornarem-se mais numerosas (algumas com diferentes anos de escolaridade), viram a indisciplina, o desmazelo e o desinteresse a crescerem (de modo inversamente proporcional à sua autoridade)… e, finalmente, viram também crescer a pressão para fazerem transitar todos os alunos. Os professores do primeiro ciclo têm sido uns heróis, heróis muitas vezes incompreendidos e sós.
Quem já não se lembra de ter constatado (incontáveis vezes) que os alunos chegam cada vez com mais dificuldades, com mais lacunas e mais indisciplinados ao segundo ciclo, ao terceiro ciclo...? Não, não estou a apontar o dedo a ninguém, estou apenas a apontar o dedo à fonte e a declarar que muitos dos “males” com que hoje nos debatemos são consequência dessa falsa premissa (porque não há dinheiro que a pague): o aluno transita porque será apoiado, para recuperar o seu atraso até ao final do ciclo. É este o embuste. O que acaba por acontecer, na maioria dos casos? Empurrão atrás de empurrão até uma qualquer saída “airosa”. Contrariamente ao que dizem “certos estudos” e o “discurso oficial”, a minha experiência diz-me que quanto mais cedo a retenção acontecer mais profícua ela se torna.
A par deste tabu da retenção no primeiro ano de escolaridade, foram adicionados ao kit do embaratecimento da escola pública (ainda se lembram?) dois conceitos que visavam (e ainda visam) tornar “proibida” a retenção, fazendo crer que, em tais casos, os professores estão a cometer um “autêntico crime”, uma espécie de infanticídio pedagógico: a “dupla retenção” e a “retenção repetida”. Se bem se lembram, a Lei até já permitiu que os conselhos de turma pudessem fazer transitar alunos com quatro, cinco, seis… negativas, sem alteração de nenhuma nota. Bastava indicar na pauta uma determinada alínea de um determinado normativo. Por que motivo cria agora tanta escandaleira o facto de haver diretores que pressionam os conselhos de turma para passarem alunos com quatro ou cinco negativas? Porque as notas são alteradas artificialmente para os alunos passarem? Se é por isto, assino por baixo.
Agora estamos em plena apoteose de todo esse velho processo de eliminação do insucesso sem eliminação das reais dificuldades/atrasos/lacunas dos alunos. Os professores acreditam mesmo que é desta que os tais apoios vão ser suficientes e eficazes?  Os professores acreditam mesmo que é uma flexibilidade qualquer feita com contas de horas retiradas daqui e acrescentadas ali, com falsas transversalidades, como mais trabalho burocrático… que os alunos vão ser efetivamente recuperados? Os professores, que também acompanham as notícias do país, acreditam mesmo que, presentemente e num futuro muito próximo, haverá meios para recuperar efetivamente quase todos ou todos os alunos que transitam com graves lacunas? Acreditam mesmo?
Fez muito bem este Governo em tomar como grande objetivo a universalização do pré-escolar. A minha vénia. Todavia, está a borrar completamente a pintura ao não investir seriamente no primeiro ciclo, relativamente ao qual o sistema precisa de uma fortíssima discriminação positiva: turmas efetivamente diminutas (não mais de quinze alunos no primeiro ano) e apenas um ano de escolaridade em cada sala; mais autoridade aos professores deste nível de ensino; mais responsabilização (a sério) dos encarregados de educação. Não pode haver melhor investimento. O que se gasta “a mais” aqui poupa-se nos níveis seguintes, e obtém-se muito melhores resultados (verdadeiros). Temos de combater precocemente aquilo que mais tarde só pode ser atenuado ou iludido, porque é, na prática, irrecuperável. Todos sabemos isso (creio eu).
Todos saberíamos compreender e todos nos envolveríamos — acredito — num esforço sério (como este) de correção pedagógica do ensino básico e de melhoria efetiva de todo o sistema de ensino. Tudo é muito mais fácil quando os agentes acreditam mesmo. E eu creio de tal forma neste caminho, que aceitaria o congelamento definitivo da minha carreira para ajudar a patrocinar uma tal medida discriminatória. Afinal, não foi o dinheiro que me trouxe para o ensino. Não sou um apóstolo das retenções, mas quero algo que as substitua com vantagem (não na Austrália, em Portugal)!

domingo, 9 de julho de 2017

Coração partido!



Fim de semana em Trás-os-Montes, alheado destas coisas cibernéticas. Vinha com ideias de voltar a envergar a armadura e de me atirar àqueles que começaram a destruir o ensino básico pelo primeiro ciclo. Mas vou ter de deixar isso para amanhã, pois, ao abrir o computador, após o jantar, tive algumas surpresas que me fizeram chorar! Enfim, um lobo não está habituado a certas coisas!
Tenho estado a responder a alguns e-mails absolutamente inesperados: de alunos meus. Lamentam a minha mais que provável saída da escola e, com as palavras “setas”, dizem-me coisas que me amolecem o coração e, como já disse, me fizeram verter as mais selvagens lágrimas lupinas. Percebem agora os meus prezados colegas por que motivo dedico aos catraios tantas horas do meu tempo livre? Simples: porque os amo e porque me amam! Não há mais nada para além disto!
Tanto me tenho dado aos professores e só tenho levado pontapés. Dos mais próximos, nenhum me disse, em tempo útil, “Fica!”. Nenhum me disse, em tempo útil, “Lamento que te vás embora!” Nenhum! Têm sido os alunos (muitos alunos) a ter esse nobre gesto. Sinto que gostaram realmente de mim! Sinto que levo também o reconhecimento e o respeito dos encarregados de educação! É, no fundo (lamento dizê-lo) o que mais me importa neste momento.
Mas eu, afinal, não sou aquele Lobo Mau que quer reprovar os alunos? Mas eu, afinal, não sou aquele retrógrado que dá secas atrás de secas até matar os jovens de tédio?
Deixo-vos dois testemunhos: o primeiro, de uma aluna com excelentes resultados escolares; o segundo, de um aluno que, embora tenha a transição “garantida”, não fez o suficiente para ter os resultados que estão, com facilidade, ao seu alcance.
Na última semana, por várias vezes, notei que nos olhos da Aluna X, de vez em quando, “perolavam” algumas lagrimitas reprimidas. No último dia, lá acabou por me dizer, repetidas vezes, que tem muita pena que eu me vá embora. Como tive medo de me desmanchar, brinquei com a situação, dizendo-lhe que, com o tempo, verá que isso é bom para os alunos. Sorriu. Escreveu-me um brevíssimo, mas cirúrgico e-mail. Disse-me, em poucas palavras, tudo o que um professor precisa de ouvir.
O segundo testemunho é o seguinte:
«Gostaria de lhe agradecer por tudo o que fez nestes últimos dois anos, tanto por mim como pela turma. Foi um professor que me marcou muito, pois impunha respeito dentro da sala de aula e com um bom ambiente. Por palavras é difícil de explicar. Agradeço por nunca me ter marcado um processo, pois eu sei que o professor reparava em todos os meus comportamentos.
Gostei muito de o conhecer e fez-me crescer muito. Ser seu aluno foi algo marcante! Tenho pena que se mude de escola pois tinha a certeza que vários alunos gostariam que o docente lhes desse aulas.
Peço desculpa por ter faltado a aulas que o senhor nos dava de livre vontade e de graça, demonstrando assim que se importa bastante com os seus alunos! Por isso lhe agradeço!»
Também disse tudo.
Este é apenas um dos meus 75 alunos do nono ano, daqueles que todos os dias (repito: todos os dias) me mimavam com palavras quando chegava à sala. Tive de lhes ralhar muitas vezes, mas nunca me guardaram ressentimento. E sei que eles sabem que comigo sempre foi assim também. Eles sabiam que antes, durante e depois de tudo, fosse em que situação fosse, eu gostava muito deles. Isso foi determinante.
E pronto, encerro com boas lágrimas o meu fim de semana.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Os modernaços



Nos próximos dias (o que não significa que seja todos os dias) vou contar algumas histórias baseadas em casos reais, alguns vividos na primeira pessoa e outros que me foram narrados. Talvez assim algumas pessoas “vejam” e outras fiquem sem moral para continuarem a negar o que sempre “viram”. Por agora, fico-me por uma óbvia constatação: a da prodigiosa plasticidade dos modernaços.
É curioso como, após a capitulação do professorado no reinado de D. Lurdes, os que mais cedo se vergaram, passando a envergar as vistosas cores do lurdismo e a defender a pertinência das lurdices, são basicamente os mesmos que aderiram, precoce e entusiasticamente, às cratices e às geringoncices. Os mesmos que, ainda no ano passado, eram fervorosos apóstolos dos planos de ação estratégica, ajoelham-se agora aos pés da nova e flexível autonomia. Reter alunos é coisa do passado, mau instinto de maus professores, brasão de uma espécie de Idade Média da pedagogia. Os modernaços aderem a tudo o que vier à rede, porque não querem… parecer certas coisas e sofrer outras.
No entanto, à velha Idade Média da pedagogia está a suceder uma nova Idade Média, com novos anátemas: quem não adere é porque encara a avaliação como castigo, não quer recuperar os alunos, é inimigo dos mais desfavorecidos, não gosta de trabalhar em grupo, de partilhar decisões, talvez porque tenha medo que os outros assistam à sua incompetência, às suas perversas parcialidades… Os adesivados é que são os amiguinhos, os que mais amam os alunos, talvez os mais competentes para o exercício da profissão. Os outros…
É um gigantesco jogo de espelhos e de máscaras o tempo que vivemos. Os que se estão borrifando, os que apenas beijam o seu umbigo são os que vão mais alegres na longa e gorda procissão de anjos. Lá à frente, na cabeça do corso, uma belíssima alegoria da autonomia e da flexibilidade; na cauda, um tosco andor feito de plástico reciclado de utensílios descartáveis.  

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Um banquete de tristeza, por favor!



Repugnante (e insidioso) conceito de autonomia, aquele que é mensurável, quantificável, passível de ser representado numa percentagem de um currículo. É essa a autonomia com que nos iludem? É essa farsa de autonomia que nos cega? Tristes de nós, se não vemos!
Enquanto nos regozijamos com percentagens (ou com mais minutos aqui, menos minutos ali), todas as nossas muralhas, todos os nossos castelos estão a ruir. Os profetas das novas e flexíveis autonomias (e os apóstolos que entre nós espalham a sua palavra) anunciam tempos nus, novos templos onde cada um de perde praticamente todos os baluartes da sua autonomia pedagógica e não vai poder decidir praticamente nada. Tudo nos vai ser imposto, desde a planificação à avaliação, passando, como é óbvio, pelo ato pedagógico por excelência. Aos parvos, dizem que é partilha, articulação, mas não passa de esmagamento profissional. É o fim (absoluto) dos pedagogos, o limiar de uma nova era: a do operariado letivo.
Hoje estou especialmente triste! Mas o que mais me entristece não é ver prosperar os extraterrestres que nos controlam, que nos exploram e exaurem a Escola Pública; o que mais me entristece é ver tanta penumbra, tanta cegueira e tamanha rendição entre aqueles que deveriam ser luz e dar luz. 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Ter de



Em tempos de auspiciosa flexibilização, é muito estranha a proliferação de títulos que contêm a expressão "ter de": "as escolas vão ter de", "os professores vão ter de"... Só não vejo nada (absolutamente nada) do género "os alunos vão ter de" e "os pais vão ter de".
É fácil de ver para que lado torce a flexibilidade e quem vai ter de torcer (ainda mais). Mas é inútil ver, porque a moda e o medo tudo arrastam. A voragem parece cega  e inexorável.

A minha ode à autonomia e à flexibilidade


É isto que queremos ser?

terça-feira, 4 de julho de 2017

Há vida extraterrestre nas nossas escolas




A nossa comunicação social, uma vez mais, foi ao terreno pedir, a quem de direito e por ordem de importância, declarações sobre uma grande novidade no sereno mundo do ensino: as escolas a passarem alunos com cinco (ou mais) negativas. Onde é que já se viu tal coisa? Enfim!
O primeiro entrevistado da TVI (canal que, por acaso, estava a ver) foi, como manda a Lei, o presidente da ANDAEP. Que sim, que é normal, nos anos intermédios, as escolas darem uma (ou mais, digo eu) oportunidade aos alunos para quem, um determinado ano letivo não correu bem (não é para rir!). Que não, que não tem conhecimento de nenhuma pressão exercida sobre professores para fazerem transitar alunos (vá lá, contenham-se!). Se alguém tem conhecimento de algum caso, então que o denuncie (abram uma linha telefónica de atendimento).
Seguiu-se, como manda a sapatilha, um representante da CONFAP. Blá blá, blé blé, bli bli… Bem, se tais coisas se… hummm… passam, é evidente que… he… trrrim... giroflé… não concordam, pois claro!
Por fim, uma representante da ANP, que confirmou que lhe têm chegado queixinhas de professores cujas notas apareceram alteradas.
Mas quem é que os professores julgam que são? Acaso conhecem o significado do verbo propor? Nunca ouviram dizer que o professor propõe e Deus dispõe? Não percebo o que esta desocupada comunicação social vê de estranho em tudo isto! Até parece que não há assuntos bem mais prementes para os senhores jornalistas se entreterem. Ora vão lá à vidinha e deixem Marte em paz e sossego!

O nosso gostoso pantanal



Já todos sabemos e estamos cansados de saber: o Estado não tem dinheiro para pagar condignamente a todos. Assim sendo, vai sendo generoso com quem parte e reparte, vai dando o que pode a quem sabe protestar e protesta, e não dá nada a quem tem medo, cala e consente. É o caso dos… (tcharã)... professores.
Aos professores, à falta de pilim, sempre se tem pago com… tempo, esse bem tão preciso! Todavia, nos áridos e quietos tempos que suportamos, nem tempo há para pagar aos professores. Os cargos, que noutras profissões ainda são pagos com money, nas escolas são remunerados com tempo, ou melhor, com tempinho, pois, normalmente, nem dá para 1/5 do necessário (já para não falar da responsabilidade assumida). É o caso flagrantíssimo do cargo de diretor de turma. Os felizes contemplados com esta benesse não sofrem de abulia, de certeza absoluta. Mas também não sofrem de stresse, uma vez que podem dormir tranquilamente, com aquela paz e harmonia só acessíveis a quem tem a certeza de que ninguém lhe quer assaltar o castelo para o depor. Haverá neste mundo algo mais sereno e mais reconfortante? Não acredito!
Como o tempo dado legalmente aos diretores de turma não chega para as mais pequenas encomendas, e como as escolas também não têm máquinas de fazer tempo (nem dinheiro, infelizmente), tem-se recorrido à mais inesgotável fonte de riqueza: a imaginação portuguesa (há quem lhe chame chico-espertismo). Perliiiiiiim! E eis que, dá lâmpada oxidada, sai uma ideia genial: a transformação do secretário (que, outrora, só redigia a ata) em assessor do diretor de turma. Ajuda antes da reunião, colabora durante, continua colaborar depois… já começa a ir às reuniões com encarregados de educação, a estar presente nas matrículas (coisa que, dantes, era atribuição da secretaria)… Uma maravilha! O secretário é um prestimoso escravozinho que nem sequer com tempo é pago. Algumas escolas até já “legislaram” a preceito, consignando a filigrana dessa escravatura no regulamento interno. Outra maravilha ainda mais maravilhosa! Vale népia, dear school legislators!
Enfim, caros colegas (e não só), é este o maravilhoso pantanal em que, alegremente, vamos chapinhando. Mas na Síria está tudo bem pior! Algum de vós queria ser professor na Síria, ou fazer um plano de recuperação para membros do dito Estado Islâmico? É claro que não!!! Por isso... vejam lá se aprendem a gostar!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Quando o Fizz Sebastião voltar



Hoje decidi pegar num pequeníssimo, mas absolutamente simbólico, exemplo da nossa mísera condição. O material acima exposto seria o mínimo exigível a acompanhar o envelope com os exames nacionais (se alguém nos respeitasse). Enfim, pobres, desconsiderados, desrespeitados, mal pagos e… ainda pagamos para fazer o que outrora — no tempo do Fizz Limão — era pago à unidade.
Mas tudo isto, e muito mais, vai acabar quando o D. Sebastião voltar… de Fizz Limão em punho! Vem depressa, Fizz Sebastião, e traz-nos a redenção!!! 

domingo, 2 de julho de 2017

Professores ou sujeitos da passiva?



O que mais me dói na classe docente é o modo como, paulatinamente, nos temos deixado secundarizar, subalternizar e funcionalizar. Na verdade, muito do respeito que dizemos ter-nos sido usurpado resulta deste conformismo doentio, desta inadmissível rendição.
Atualmente, parece que só nós, enquanto classe, é que não somos ouvidos. Seja qual for o assunto, a comunicação social procura imediatamente conhecer a opinião do representante dos pais e encarregados de educação, do representante dos diretores, dos políticos… Só nós ficamos no nosso canto, à espera que os outros decidam, para depois implementarmos. Os sindicatos? Estão demasiado focados (para não dizer “vocacionados”) para questões de ordem contratual, de vencimentos e de progressões, de concursos… E como esta procissão ainda nem sequer saiu do adro…
Exemplo claro do que acabo de afirmar é o que, nos últimos dias, tem sido divulgado e partilhado, nas ditas redes sociais, por alguns conhecidos bloggers ligados ao ensino. Dizem os meus colegas que o fim das retenções é uma inevitabilidade, porque já alguém decidiu e o processo está em marcha irreversível. Logo — dizem eles — o melhor é habituarmo-nos à ideia, aceitar a realidade e tentarmos ser felizes neste novo enquadramento. O tanas, caros colegas! Esta é a posição de quem funciona como uma máquina, não apenas porque executa ordens, mas porque abdica da sua autonomia, da sua consciência, da sua ética, dos seus direitos e deveres. Nós somos pedagogos, caros colegas! E, enquanto pedagogos, temos o direito e o dever de intervir, ativa e construtivamente, em todo o processo decisório. É a nossa ética profissional e os superiores interesses daqueles que ensinamos e educamos que o exigem. E há ainda um outro fator, não menos relevante: a nossa dignidade, a objeção de consciência a que temos direito. Abdicar dela é arruinar toda a nossa autonomia, toda a nossa autoridade. Sem isso, jamais teremos o respeito que almejamos.
Não sou, por princípio, contra um sistema que não reprove os alunos. E também sou a favor da recuperação de todos os alunos. No entanto, dos princípios à realidade vai, na maior parte dos casos, uma enormíssima distância, e um fatal abismo, por vezes. Com a sociedade que temos, com os encarregados de educação que temos, com os alunos que temos, com os políticos que temos, com os meios que temos, com a crise que temos, com o regime de gestão das escolas que temos, com as desconsiderações e faltas de respeito que temos, com o medo que temos… o fim das retenções será uma calamidade. Repito: uma calamidade. Muitos alunos serão enganados, porque acabarão empurrados para a frente, a troco de um qualquer simulacro de aprendizagens essenciais. Muitos, como bem sabemos, enveredarão pelo caminho do desinteresse, da falta de ambição, da preguiça, acabando por desembocar na indisciplina e/ou na violência. Sabemos perfeitamente (já acontece agora) que, para além de não quererem aprender (porque vão transitar sempre), se entreterão a não deixar que outros aprendam. Destes, os que puderem procurarão o ensino privado. Os professores, por seu turno, suportarão “esta poupança”, diariamente, com o seu ego: mais desautorizações, mais humilhações, mais faltas de respeito, mais agressões, mais trabalho escravo e trabalho inglório… É o nosso tutano que vai ser consumido.  
É por isso que nós temos o direito (por nós) e a obrigação (pelos alunos) de sermos voz ativa nas decisões que interfiram diretamente com o processo de ensino e aprendizagem. Ninguém, absolutamente ninguém, nos pode impor nada que implique a nossa desautorização, a nossa perda de dignidade e do respeito dos nossos alunos, encarregados de educação e sociedade em geral. Não podemos lavar as mãos, como Pilatos, nem aceitar o papel de sujeitos da passiva, porque é antagonista da nossa condição. É uma obrigação profissional e um imperativo ético, caros colegas!

sábado, 1 de julho de 2017

Flexibilidade curricular em desenho animado


Esta animação é, sem sombra de dúvida, um grande serviço público prestado pelo Eramá ao país. Com esta ferramenta pedagógica, o Ministério da Educação pode poupar rios de dinheiro em ações de formatação sobre os auspiciosos prodígios da flexibilidade. É só pôr a correr, que os implementadores percebem logo. E evitamos desperdícios de energia.
É gratuito, Dr. João Costa. Disponha e dê-lhe o uso que muito bem entender.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

LO-FI MODA

Capa do álbum "Lo-Fi Moda", Ermo

É o título do novo álbum dos Ermo, editado pela Valentim de Carvalho. Foi, hoje mesmo, posto à venda em todo o país.
Um dia, há um pequeno punhado de anos, “vindo quase do nada”, o meu filho (António Costa), regressou a casa com uma canção (“Montalegre”) gravada no computador, por ele e por um amigo (Bernardo Barbosa),com quem, supunha eu, passava aquelas lentas tardes de verão a ouvir música. A surpresa foi enorme, ainda maior do que aquela que, um ano antes, tinha experimentado quando o ouvi cantar, na Gulbenkian de Braga, uma canção do Zeca Afonso! Nunca imaginara um filho meu com voz para cantar. Tocou-me bem fundo aquela canção: pela boa surpresa, pelo tema escolhido, pelo título (muito arreigado aos genes mais profundos da minha família), pela criatividade… Começar pelas raízes é sempre um bom auspício. Foi assim que nasceu o grupo.


Contemplando o célere e tão frutuoso trajeto dos Ermo — vários álbuns editados, atuações um pouco por todo o país (dos pequenos aos grandes palcos, como o Theatro Circo, a Casa da Música…) e pelo estrangeiro (Espanha, França, Inglaterra, Dinamarca, Brasil…) e uma nomeação para os Prémios Novos (em 2013, juntamente com Capicua e DJ Marfox —  ficamos com sensação de que já calcorreiam os trilhos da música há muito tempo. No entanto passaram apenas cinco anos. Mas o dinamismo dos Ermo não se tem confinado ao ritmo produtivo e à conquista dos palcos. É sobretudo no domínio criativo, musical e literário, que a irreverência dos Ermo mais se tem afirmado. O duo tem percorrido, de forma absolutamente surpreendente, vários estilos, sem perder a sua mais íntima identidade, claramente afirmada no terreno num vanguardismo  musical assente na inteligência e na acutilância crítica das letras. Os Ermo parecem, pois, fadados para nos surpreenderem constantemente com o modo como aliam o seu inconformismo social a um aparentemente insaciável nomadismo musical. Parecem nascidos para serem eternamente novos.
“LO-FI MODA” já mereceu, recentemente, os mais rasgados elogios de um programa Antena 3. Estou certo que de que, nos próximos tempos, múltiplas serão as ventanas que nos trarão novas deste álbum e dos Ermo, um par de bracarenses que prometem continuar a surpreender e a semear orgulho por aí.

“Correspondência”, um tema do álbum “Vem por aqui”

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O que se pode esperar e o que não se pode esperar dos professores



O QUE SE PODE ESPERAR:
ü  que trabalhem muitas horas a mais, na escola e em casa;
ü  que não contabilizem nem esperem compensação monetária pelas horas excessivas de trabalho;
ü  que aceitem não progredir na carreira;
ü  que preencham todo o tipo de inutilidades de burocracia pedagógica;
ü  que baixem constantemente a fasquia da exigência na avaliação e classificação dos alunos;
ü  que votem, sem qualquer critério pedagógico, as notas dos colegas;
ü  que, quase anualmente, ponham de lado toda a experiência acumulada pera embarcarem em ilusões;
ü  que exerçam todo o tipo de funções, docentes e não docentes;
ü  que não digam, nas reuniões, o que realmente pensam;
ü  que não levem a conselho pedagógico as críticas de quem pensa de modo diferente;
ü  que executem medidas que defendem os cofres do Estado mas lesam os interesses dos alunos; 
ü  que aceitem cada vez mais desconsiderações e faltas de respeito;
ü  que sofram e esqueçam a quotidiana violência psicológica;
ü  que sofram e calem a cada vez mais frequente violência física;
ü  que ostracizem os colegas que ousam dizer o que quase todos pensam e quase todos desejam;
ü  que não sejam solidários (e até maldigam) quem ousa defendê-los;
ü  que se queixem, em concreto e em abstrato, de todas as injustiças de que têm sido alvo;
ü  que critiquem mordazmente os sindicatos;
ü  que critiquem mordazmente o ministro da Educação.
(…)
O QUE NÃO SE PODE ESPERAR:
ü  que façam ouvir a sua verdadeira voz quando e onde é realmente preciso;
ü  que  digam “NÃO” quando acham que é seu dever dizer “NÃO”;
ü  que apoiem (objetivamente) quem os defende;
ü  que enfrentem os seus múltiplos medos;
ü  que lutem corajosamente pelos seus direitos;
ü  que critiquem ou contrariem o diretor;
ü  que vistam com atos as palavras que dão;
ü  que façam jus aos valores que tentam transmitir aos alunos.
                                                                     
MORAL DA HISTÓRIA
Má pintura no mural: as lágrimas da História! Ou serão apenas as minhas?