sábado, 29 de abril de 2017

Cavaleiro andante do ensino


Há cerca de dois anos, na impossibilidade de um encontro presencial, um determinado ser humano viu-se compelido a escrever um longo e-mail de apresentação, para tentar atenuar o efeito do benévolo ruído que (ele sabia) faria questão de o preceder (“Vem aí o lobo bom!”), visto que a verdade e a bondade acendem muito mais a militância do que os valores inversos. Sabia, e continua a saber, que os seus queridos benfeitores, para lhe proporcionarem ótimas condições de integração, gostam de acenar com a sua ambição de ser diretor. Só gente muito bem-intencionada (para não dizer melhor) pode ofertar tão belo buquê de amores-perfeitos, e só quem o conhece muitíssimo bem (muito melhor do que ele próprio), ou quem está encharcado de sapiência até à ponta das orelhas, pode acreditar em tal revelação. Enfim, é o ameno paraíso em que vivemos.
Para que conste (e para que até os mais desprovidos de lucidez possam compreender) deixo aqui um pequeno excerto da missiva desse cavaleiro andante, pois tudo indica que, brevemente, terá de repetir teor do discurso.

«Bom dia, XXXXX!
Como sabes, foi meu desejo ter uma conversa presencial contigo, pois entendo que é a melhor e a mais eficaz maneira de comunicar. Tal não foi possível — sei que o trabalho é muito — e acabei por trocar apenas algumas palavras contigo em contexto de reunião. Pensei, posteriormente, que talvez pudéssemos conversar um pouco no dia da ação sobre os quadros interativos, mas nesse dia não pude estar. Questões familiares primeiro e demoradas obras em casa depois acabaram também por ir adiando esta missiva que, entretanto, decidi escrever-te. Não é a palavra dita, associada ao rosto, mas tem, ainda assim, o valor da palavra escrita.
Em primeiro lugar gostaria de dizer-te que prezo muito o cargo que ocupas, pois, para além da responsabilidade e das canseiras que acarreta, é vital para a escola e para comunidade. Já desempenhei, como creio que sabes, funções similares na X XXXXX XX, sem nunca as ter desejado (aceitei-as após prolongadíssima insistência de algumas colegas e com espírito de missão a prazo). Jamais repetirei essa experiência. Continuo a pensar como sempre pensei: que o meu habitat natural é a sala de aula. É lá que eu me sinto bem, com os meus alunos.
No recente concurso, coloquei a XXXXX XXXXXX em primeiro lugar, embora não tivesse descartado a possibilidade de regressar à XXXXXX XXXXXXXX ou à X XXXXX XX. Quis o “destino” que eu fosse colocado na primeira opção, motivada apenas pelo facto de ser uma escola de segundo e terceiro ciclos (acho que já não estou com muita pachorra para voltar ao secundário). De resto, muito pouco sabia sobre a escola, e acredita que as instalações pouco me importam. Há, antes desse aspeto, muitos outros que contribuem, de forma bem mais determinante, para o meu bem-estar pessoal e realização profissional. Por eles, trocaria rapidamente uma “escola de cinco estrelas” por uma muito pobre, mesmo improvisada, como algumas que conhecemos em países do chamado terceiro mundo.
Tenho-me em muito modesto conceito, quer como pessoa quer como professor. Já me sentirei realizado se, com a minha inclusão na XXXXX XXXXXX, a qualidade do seu “produto” formativo e instrutivo não decrescer. Tudo farei para que não se note grande diferença entre o meu desempenho e o do(a) colega cujo lugar agora vou ocupar. Contudo, não sou um professor obcecado com o sucesso dos alunos. Desejo-o, como é óbvio, dou tudo o que tenho para que ele se concretize, mas entendo que o essencial do mérito vem deles, das suas capacidades e do trabalho que realizam diariamente. Do que de mim depende, procuro preparar-me sempre bem, pensar as aulas antes e depois, ter tempo e disponibilidade mental e afetiva para o meu trabalho e relações interpessoais, com alunos e colegas. Se estiver bem, o meu trabalho letivo será bom e os meus alunos estarão mais disponíveis para as aulas e para a aprendizagem. Dessa forma, os resultados acabam sempre por aparecer.»

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Berços da democracia


A escola é, por natureza, o nosso berço social e político. É lá que, de facto, começamos a conhecer-nos, na relação com o(s) outro(s), é lá aprendemos a viver em sociedade, é lá que interiorizamos os propalados e os verdadeiros valores em que ela assenta, e é lá também que começamos e definir o nosso lugar e o nosso papel nessa imensa e complexa macroestrutura. A escola é o berço da cidadania e dos regimes.
Quem conhece as nossas escolas sabe perfeitamente que são autênticos abismos: de um lado, os princípios e valores propalados, afixados, recitados, cantados, memorizados…; do outro, os princípios e valores praticados, aqueles que são realmente transmitidos, aqueles que são profundamente interiorizados e sedimentados na personalidade dos nossos jovens. Os primeiros… vão para a montra da hipocrisia: é o que tem que se dizer, o que fica bem dizer, o que é social e politicamente correto dizer. É esta a matriz do ensino e da aprendizagem sociopolítica nas nossas escolas.
Que regime estará a ser embalado nos nossos berços? Será a democracia? Que democracia?
Os alunos, atualmente, crescem num contexto escolar marcado pela indisciplina, pela falta de consideração e de respeito, pela agressividade, pela violência e… pela impunidade. No final do percurso, os infratores riem-se do sistema, os que sofreram os abusos ficam com mágoas e com medo e… todos transitam. O sucesso é um maná que não distingue. A justiça é um produto manufaturado para uns e uma miragem para outros. As referências adultas — refiro-me aos mestres — são as cavernosas sombras do regime que os espera.
Os verdadeiros cravos da democracia não são as flores que ostentamos, são os exemplos que damos, os atos que praticamos, os votos que depositamos nos ventres onde se gera a liberdade, onde, de facto, se decide e ensina quem mais ordena. A democracia é uma imensa planície povoada de cravos destes. Sem este genuíno e profuso colorido, é uma farsa, um embuste, uma capa conveniente, uma extensa passadeira vermelha que nos conduz aos arrabaldes do que, assumidamente, não queremos ser.
Nas nossas escolas, os votos estão em vias de extinção, e muitos dos sobreviventes não passam de mero e serôdio exercício de ficção política: tudo está previamente decidido, na penumbra dos gabinetes, nos hálitos dos pequenos grupos afetivos, nos cicios da conivência. Lá em cima, está o “Padre sublime e dino, que vibra os feros raios de Vulcano”; cá em baixo, está a arraia aquiescente, calada, curvada, encolhida, obediente, explorada e desrespeitada. Quem não alinha… “Vós, judeu, irês à toa, que sois mui ruim pessoa”. Já assim era no tempo da Outra Senhora: muita censura, muito conluio, muita bufaria, proscrição e exílio. As vozes discordantes são cilindradas pelo silêncio dos ortodoxos, que só mais tarde, “lá fora”, ousam dizer que gostaram do que ouviram, e tentam pôr a mão no ombro, para… matar a democracia pelas costas. Os aquiescentes estão a ensinar a submissão e o medo às futuras gerações.
As nossas escolas são viveiros daquilo a que, eufemisticamente, sói chamar-se populismo, mas que não é senão totalitarismo — com hodiernas e subtis roupagens, mas totalitarismo —, aquele que se erige sobre o medo, sobre a alienação da consciência, sobre a imposição de condutas dogmáticas, sobre a instrumentalização das pessoas, sobre marginalização e perseguição do pensamento divergente, sob o ónus de uma só vontade.
É, por tudo isto, urgente soltar as vozes que ainda não se deixaram esganar; é urgente que os professores que ainda não morreram venham à praça fazer militância pela democracia e pela liberdade; é urgente fazer abortar este monstro! É urgente salvar os berços da democracia deste bafo cinzento!

terça-feira, 25 de abril de 2017

Súplica da Liberdade


Imagem retirada daqui.


Não, não me dês mais palavras! Estão puídas, adulteradas… embebidas de branca cor que o teu âmago não brotou. São sopros luzidios onde não moras, espectros de aves que não poisam, essas tuas palavras pintadas e fugidias.
Ah, como doem as tuas palavras adiadas, tardias, abortadas do silêncio tolhido, conivente… , palavras que não ousas dar-me no lugar e na hora em que tas peço! Como me torturam acidamente essas palavras doentias, palavras que eu não quero, não tolero nem mereço!
Não, não me dês mais palavras! Com essas palavras desprovidas, tu matas-me lentamente!
Estou doente, a definhar num castelo erigido com as tuas palavras arredias! É dos teus atos, agora, que eu careço! Se me amas, como levianamente dizes, vem abraçar-me, e sê a inteireza transparente em cada gesto. Vem, vem assim, ao meu peito, dizer-me o que as tuas palavras já não podem! E não temas, nada temas, quando por mim te dás. O temor é o soro erodente da minha lenta agonia. Vem, vem assim, pelo trilho incerto e arriscado, ao meu leito decadente! Vem, vem assim, coração aberto, ousado, pôr-te a meu lado, trazer-me o dia! Se queres a minha alegria, terás de ousar sofrer por mim!
Não, não me dês mais palavras! As tuas palavras vãs são filhas do silêncio que me prendeu. Dá-me agora, te peço, urgentemente, a vida e a paz em cada gesto teu! Só assim nos salvarás!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Teoria da relatividade aconselhada



Na Escola Pública é tudo muito relativo (a dinheiro). 
E o que sai caro tem que sair depressa.
O resto... não interessa!

domingo, 23 de abril de 2017

Apoucamentos


Quem não gosta de nós — ou, simplesmente, quem sente alguma inveja ou dor de cotovelo — à falta de pior, tenta sempre apoucar o que fazemos. No meu caso, é mais pela escrita que os meus antagonistas vão.
Relativamente à minha produção ficcional, tentam sempre ver-me ali representado, juntamente com todos aqueles que me rodeiam. Dito de outra maneira: eu não tenho nenhuma imaginação, apenas me limito a “recontar” o acontecido, com outros nomes (ainda assim, se bem contado, teria o seu valor); a minha ficção, como retrata apenas o que se passa com um ser humano em particular, o seu autor, está desprovida de qualquer dose de universalismo (ainda assim, se bem e sinceramente escrita, teria o seu valor). Até já houve quem tentasse reduzir o meu romance (Flor de Burel) à condição de novela, só porque os protagonistas são provincianos. Contudo, pelas 272 páginas dessa “novela”, para além da vasta galeria de personagens, passa o nosso Portugal, a Espanha, a Europa e o mundo do início da década de 40. Enfim, não me alongo. Registo apenas essa mesquinha e medíocre vontade de apoucar.
Como é óbvio, também nos meus blogues isso acontece, sobretudo quando me exprimo através do literário, seja em poesia seja em prosa. Para os meus maledicentes e malfazejos de serviço, é como um frasco de mel. Julgam que podem ocupar os textos e expropriá-los a seu bel-prazer. É o que fazem. Alguns juram a pés juntos que eu estou a falar de Fulano, de Beltrano ou de Sicrano. E… vai daí… toca a agir em conformidade. Outros, juram de mãos juntas que eu estou a visar especificamente a minha escola, ou a anterior ou a anterior… Ou seja, o que eu escrevo nos blogues dedicados à Escola Pública nada vale, pois só “retrata” situações muito particulares, vividas pela minha pessoa. É a versão profissional dos apoucamentos “mais literários”. Façam-me um favor!!!
O caso mais recente é o do conto O último lobo de Fearland, que mereceu algumas indiretas e outras tantas diretas, vindas de criaturas diversas e por vários canais. Vou, por isso, fazer o que nunca fiz, que não deve ser feito e que talvez não volte a repetir: uma legenda para totós. Vamos a isso.
Como não pode ser muito pormenorizada (para não se perderem), vou direto aos pontos fulcrais (mas têm de me prometer que, depois, releem o texto). Ok! Então é assim:
ü  Treason Town: não é nenhum lugar específico, nenhuma escola em particular (muito menos a minha), é o conjunto de todos aqueles que traíram e dos que continuam a trair a Escola Pública; alguns estão bem dentro das nossas escolas, outros (muitos) estão fora, perto, longe e acima das escolas (capiche?);
ü  Lobo: sim, posso ser eu, como tantos outros; simboliza todos aqueles que continuam a lutar, a não se conformar, a acreditar que a “ressurreição” da classe docente pode acontecer quando quisermos; até no íntimo daqueles que reconhecem que se vergaram, que se acomodaram, há um lobo que, por muito débil que esteja, ainda não se rendeu (é a nossa consciência mais profunda); está preso e amordaçado, mas pode ser libertado;
ü  Fearland: representa o medo dos habitantes de Treason Town, daqueles que querem empobrecer (em todos os sentidos) a Escola Pública; têm medo de quem resiste, temem que o exemplo dos lobos acabe por se generalizar;
ü  Lua: representa os nossos ideais, tudo aquilo por que um lobo, como eu, está disposto a “morrer” (esses ideais estão muito antes e muito acima dos míseros e mesquinhos interesses individuais); mas também pode representar a própria “morte”.

Acho que já dei provas, mais do que sobejas, de que tenho ousadia e estupidez suficientes para visar diretamente quem pretendo e o que pretendo. Já o fiz em muitas situações da “vida real”, nos meus blogues anteriores e no Eramá. Portanto, façam-me um grande favor: não tentem quilhar-me! Se não conseguirem resistir à tentação, pelo menos não o façam por trás. A minha religião não gosta.

sábado, 22 de abril de 2017

Grande salgalhada!



A ser verdade (e parece que sim, em muitas e muitas escolas) está ferida de morte a legitimidade de muitos conselhos gerais e, como é óbvio, das decisões tomadas. Lembro que uma delas, a mais importante, é a eleição do diretor.
No entanto, como estamos num país… de pescadores, e muito dado ao mar, tudo vai dar em águas de bacalhau. Ninguém o fez por mal, apenas por ignorância, para desenrascar… e tal e coisa… e “prontos, bora lá prá frente i num se fala mais nisso”!



Cigano



Podem sossegar os olhos que não vão com as minhas fuças. Já não falta muito para não terem de levar comigo. Acabei de submeter a minha candidatura ao concurso de mobilidade interna.
Aos que já “sonham”, na sombra, com o meu lugar, desejo TODA A SORTE DO MUNDO e mais alguma. Até neste campo parto em desvantagem: já toda a gente sabe que vou libertar uma vaga e eu não faço a mínima ideia do que se passa nas escolas que escolhi. J
Com tamanho nomadismo instalado nesta fase (já pseudorrevolucionária) da minha carreira, não posso deixar de me sentir muiiiiiiiito cigano. No meu íntimo já se forma o embrião, não da próxima escola, mas da seguinte.
É assim: quase todos correm por interesse, eu cavalgo porque há moinhos de vento. Duas maneiras diferentes de estar na vida. A primeira é inteligente, a segunda é estúpida. É a que me assenta bem!

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Idealismo e estupidez


É extremamente difícil — doloroso — ter tanto para dizer, mas… quase tudo arquivar, por ser cada dia mais óbvio que não vale a pena. E quase nada do que eu possa dizer aqui vale verdadeiramente a pena. Nunca fui (nem nunca serei) um placar informativo, um pombo-correio, um pretendente a colunista, um sujeito com segundos interesses, um tipo que procura protagonismo, alguém que ama muito mais o seu ego do que a Escola Pública… Enfim, sempre fui um agitador da alma, um paladino da resistência docente, nada mais. Porém…
Da seara dos dias, colho constantemente matéria para os meus uivos. Tenho a cesta cheia. No entanto, a crença que outrora me fazia correr para este teclado (alimentada por alguma ingenuidade) está agora profundamente abalada, débil, quase morta. E os assuntos acabam por ir, cada vez com maior frequência, para a gaveta da memória, à espera de… um ataque qualquer: de idealismo ou de estupidez (ou de ambos).
Hoje… com muito custo, lá consegui arranjar estômago para emborcar um pouco de cada um destes elixires. Vou, pois, dizer qualquer coisa antes que a minha já tão escassa lucidez decida regressar.
Os professores deste país — já não é pertinente o uso da expressão “classe docente” (cada um é uma ilha a tentar não se afundar) —, como já afirmei noutros artigos, deixaram cair quase todos os seus baluartes. Estão, mais do que nunca, empenhados no ato didático, mas também cada vez mais remetidos e mais circunscritos a esse reduto, embora também cada vez mais limitados e menos autónomos nesta função. Ao abrirem mão de quase todos os outros baluartes, os professores cederam o território que lhes dava maior dimensão, maior estatuto, maior prestígio, mais respeito… E esse território tem vindo a ser ocupado (em muitos casos, abusivamente) por agentes diversos, uns mais próximos, outros mais distantes da comunidade escolar. É uma desolação!
Hoje, há um vasto elenco de personagens que — por verem o terreno à mercê — creem ter legitimidade para teorizar sobre o que deve ser uma aula do presente e do futuro, sobre o modo como os professores devem trabalhar com os alunos, sobre a pertinência ou impertinência dos trabalhos de casa, sobre os trabalhos de grupo… Enfim, há demasiada gente a produzir ditames sobre o ato pedagógico, condicionando, ou tentando condicionar, o pensamento e a ação dos professores. E tudo isto sucede porque estes estão perigosamente submissos, rendidos, obedientes e calados. A Escola está a ser, cada vez mais, dirigida de fora para dentro. E isto tem um preço!
Um dia, esta onda doentia e deletéria (refiro-me ao… chamemos-lhe “enverdascamento” do ensino), a comunidade vai acordar. Vai acordar, porque vai dar de caras com a falta de ambição, com a falta da capacidade de trabalho, com a falta de asas para voar, com a indiferença, com a desmotivação, com a falta de educação e de respeito, com a indisciplina e com a violência… e vai apontar o dedo aos guardiães. E vai censurá-los por não terem — neste tempo de sucessivas invasões — sido suficientemente firmes e intransigentes, por terem deixado as atalaias à mercê, por terem abandonado e amaldiçoado quem nelas ficou, por não terem afirmado intransigentemente os valores maiores, por terem imperdoavelmente cedido a essência do seu estatuto, fonte de todo o respeito, fonte de toda a autoridade. É fatal como o destino!
Li, recentemente, num jornal de uma das nossas regiões autónomas, um artigo de uma encarregada de educação que — com muita razão — atribuía aos professores muitas das culpas pelo evidentíssimo, preocupantíssimo, escandalosíssimo e vergonhosíssimo aumento da indisciplina e da violência nas nossas escolas. É apenas o começo!

E pronto, acabou-se-me o efeito do elixir do idealismo. O da estupidez ainda mantém alguma ação, mas não o suficiente para continuar a dar uso à minha pena.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Tirando a casca ao discurso do Governo - Santana Castilho



1. Quando se inquirem os portugueses relativamente à confiança que depositam nos diferentes grupos profissionais, os professores figuram nos lugares cimeiros. Em sentido inverso funciona a confiança dos professores nos políticos que os tutelam. Ontem, isso mesmo ficou patente no seu protesto público. Tirando a casca ao discurso do Governo, resulta o vazio do que já devia ter sido feito.
Os normativos que regulam a carreira docente estão inertes em matéria de direitos. Urge regular as ilegalidades que foram acumuladas ao longo dos tempos e assegurar a contagem de todo o tempo de serviço prestado pelos docentes. Urge assumir que o congelamento da progressão na carreira cessa a partir do início do próximo ano. Urge deixar de classificar como trabalho não lectivo o trabalho que é efectivamnente lectivo e estripar do dia-a-dia da docência a inutilidade de milhentas tarefas burocráticas estúpidas, que apenas funcionam como elementos de subjugação a favor de chefias inaptas. Por outro lado, cerca de metade das situações de contratação precária por parte do Estado dizem respeito a docentes. Neste contexto, é imperioso que o Governo cumpra, sem truques, a Diretiva 1999/70 da Comissão Europeia.
No quadro mais restrito da gestão das escolas, três vertentes são incontornáveis: reversão da enormidade dos agrupamentos, alteração do modelo de gestão e garantia de que a chamada descentralização de competências passa pelo aumento da sua autonomia, que não pela entrega às autarquias de responsabilidades que pertencem às escolas.
2. Os recentes acontecimentos de Torremolinos evidenciaram confusões de apreciação que merecem rejeição preocupada. Entendamo-nos: a frequência dos incidentes com estudantes nunca lhes pode conferir normalidade; há limites que têm que ser estabelecidos e em circunstância alguma podem ser ultrapassados; é inaceitável que se desvalorize o problema com atenuantes que fomentam a irresponsabilidade; o Ministério da Educação não pode continuar alheio a um fenómeno que se tornou recorrente e também lhe diz respeito.
A Escola não será directamente responsável por problemas de comportamento que devem ser tratados pelos pais. Mas não pode ficar alheia a eles e deve aceitar que tem aí responsabilidades indirectas, via indisciplina escolar. Com efeito, o laxismo face a insultos e agressões entre alunos, a permissividade relativa à linguagem obscena que se tornou normal nos corredores e recreios, a tolerância com os telemóveis que tocam durante as aulas e todo um cortejo de comportamentos disruptivos que se banalizaram são obstáculos de monta à qualidade cívica do relacionamento interpares e estão na génese da evolução para situações de pré-delinquência. Fenómenos sociais complexos removeram os traços de autoridade inerentes à condição de ser professor e modificaram a representação que a sociedade tem da profissão. Esta circunstância tornou central a necessidade de que a sociedade, toda a sociedade, crie novas formas de apoiar os professores na tarefa gigante de ensinar e educar os filhos de todos os portugueses. É, assim, essencial reforçar e ampliar o trabalho das poucas estruturas de mediação entre a Escola e a Família e passar da simples retórica discursiva, inconsequente, para políticas eficazes de valorização social e profissional dos professores.
3. O estudo da generalização do uso de manuais digitais foi aceite pelo parlamento, após proposta do PEV. É preocupante a tendência para substituir livros por recursos digitais, sem estarem apuradas as consequências que daí podem advir para os alunos, em sede de desenvolvimento cognitivo. Com efeito, o avanço recente do conhecimento nesta área põe reservas fortíssimas à ideia segundo a qual é desejável a imersão total dos jovens na tecnologia digital. Outrossim, o que a psicologia cognitiva nos vai dizendo é que não chega fornecer ferramentas digitais para que o conhecimento se adquira, já que essa aquisição segue processos cerebrais que pouco distinguem o “nativo digital” do adolescente das cavernas.
in Público, 19/04/2017

segunda-feira, 17 de abril de 2017

O último lobo de Fearland - Texto integral

Tal como ontem prometi, fecho agora o meu conto. Optei, a bem da comodidade do leitor, pela publicação integral.

Só restava ele da numerosa alcateia que, outrora, dominara a temerosa montanha de Fearland. A maior parte dos seus pares fora definhando e morrendo paulatinamente, à medida que a caça fora rareando naquele habitat. Outros, por necessidade extrema, tinham-se aproximado demasiado da terra dos homens, acabando mortos, decapitados, embalsamados e exibidos para alimento do ego dos seus predadores. Alguns, atraídos por farejadas promessas de fartura, tinham partido em direção à mítica planície de Godland, em cujo coração estava o mais prodigioso bosque da Terra: Wonderwood.
Fearland, agreste e plena de estrias escarpadas, era como um gigantesco seio encimado por um enorme rochedo. Era ali que os habitantes de Treason Town — uma pequena cidade feita de casas de madeira, que ladeavam a única rua do burgo — viam diariamente o ascender da Lua na imensidão noturna. Mas também era ali que, invariavelmente, no preciso instante em que o astro começava a exibir o seu brilho e a sua redondez no céu, viam o único lobo de Fearland trepar até ao topo rochoso, esperar pacientemente o momento em que o corpo lunar ficava completamente suspenso no vão, e dar início a um delongado e plangente uivo, que parecia subir às alturas como um sinuoso fio de fumo saído de uma chaminé. Essa ode lupina só cessava quando a Lua já ia bem alta na negridão, com a distância expressa na sua decrescente forma, que, muito lentamente, se afastava no horizonte infinito. Nesse momento, o lobo descia pausadamente a aspereza do granítico mamilo de Fearland e mergulhava nas trevas, despertando o medo em Treason Town, cujos habitantes, conhecedores da escassez de caça — eles próprios a tinham gananciosa e desportivamente esgotado — temendo uma investida súbita da besta, se encerravam nos seus ventres amadeirados, espingardas prontas e estrategicamente colocadas. Mais tarde, à luz da candeia, cumprindo uma longeva tradição oral, semeavam, nas mentes dos mais novos, histórias terríveis de atrocidades cometidas pelas assassinas alcateias que habitaram aquele perigoso lugar.
O último lobo de Fearland, apesar das ameaças humanas e da fome que, amiúde, era obrigado a suportar durante vários dias, mantinha a sua simples rotina de animal selvagem: de dia — sempre ousou caçar à luz do dia — farejava, catava, perseguia e tomava as presas necessárias à sua tão temida sobrevivência; à noite, tinha aquele mágico e intrigante encontro com a Lua, a sua efémera companheira, que nunca se atardava, a única luz de presença que visitava regularmente a sua solidão. Depois da misteriosa vocalização, recolhia ao seu fojo e dormitava até aos primeiros folhos da madrugada. Antes mesmo de o canto dos galos se alargar nos ares frescos do crepúsculo, já ele sondava, com os seus prodigiosos sentidos, todas as brisas matinais. Instantes depois, num relâmpago, fazia-se à sua incerta e dificultosa jornada. Como no seu instinto animal não cabiam amanhãs, encarava cada dia como se fosse o único, respondendo à vida com o profundo e poderoso apelo vindo das profundezas do seu ser. Era o que a Natureza determinara que fosse. Era, simplesmente. Contudo, também o encantamento diário pelo luminoso astro e a sua lenta partida eram diariamente sentidos como únicos e últimos, intuídos e sofridos como morte. Era, enfim, este o mundo do animal mais odiado e mais perseguido daquela região: o último lobo de Fearland.
Um dia, as contingências da predação forçaram-no a uma exaustiva busca, seguida de uma obsessiva e extenuante perseguição por territórios que não conhecia perfeitamente. Já sucumbia a tarde quando, por fim, cravou os dentes na presa que lhe garantiria a centelha da vida por mais alguns dias. Todavia, no momento em que ergueu o seu poderoso pescoço, com a vítima suspensa na boca, estacou como se tivesse sido subitamente petrificado. A Lua já insinuava brilhos e alores no azul morrente do céu, bem por detrás do seu imponente trono rochoso. Tinha de ser célere como o vento! O seu instinto ditava-lhe que corresse imediatamente para lá. No entanto, um perigoso abismo se abria no seu já vertiginoso caminho: Treason Town. Tinha-se desviado imprudentemente dos seus habituais trilhos. Só atravessando Treason Town poderia chegar a tempo de se encontrar face a face com o astro celeste, no mágico momento em que parecia pousar no seu alçado rochedo. E o seu instinto ordenava-lhe que fosse, que fosse sem demoras.
Maquinalmente, abriu a boca e deixou cair a vítima. De seguida, num ápice, fez a primeira leitura do trajeto e lançou-se às encostas da montanha numa correria louca, ziguezagueando, como o vento, entre arbustos, árvores e fragas. Nada parecia capaz de o deter ou de lhe refrear a vertiginosa cavalgada. Parecia correr não pela Lua, mas pela vida.
Porém, quando pôs as patas nos descampados átrios de Treason Town, abradou subitamente o ímpeto e, surpreendentemente, acabou mesmo por se deter na soleira da rua, sondando, primeiro uma sucessão de ruídos secos, confusos e apressados, depois os silêncios da cidade já recolhida e penumbrosa. Seria, por isso, mais fácil e mais cauteloso atravessar aquela fileira de abrigos como uma seta corrente. Não havia ali, com certeza, armadilhas montadas, e dificilmente lhe acertariam com um tiro. Todavia, irracionalmente, o lobo não retomou a corrida. Ancorou os olhos na Lua, cujo coração já se afeiçoava à dura redondez do penedo mais alto de Fearland, e enfrentou a passo lento o único corredor do burgo, repentinamente emudecido, mergulhado numa marmórea e agoirenta quietude. O animal parecia uma assombração atravessando vagarosamente um cemitério. Arriscava morrer ou, pior ainda, perder o seu vital momento de magia.
No momento em que começou a ladear as primeiras casas, já os seus sentidos tinham alcançado o seu mais perfeito apuramento. O olhar estava distante, mas o faro e a audição tinham-se tornado omnipresentes, quase divinos. Na sua lenta marcha, tão provocadora quão suicida, ousada e paradoxalmente frágil, o lobo conseguia pressentir toda a subtil e muda agitação que as tábuas e as vidraças das fachadas pretendiam ocultar: uma tranca lentamente deslizada, uma cortina ligeiramente aberta, uma exclamação abafada, um ranger interrompido, um cicio apenas labiado, o metálico som de uma carabina muito lentamente fechada, o gemer de um gatilho ligeiramente premido por um dedo trémulo, respirações contidas, corações galopantes, suores fétidos de ansiedade, ódio e medo. Seria fácil, muito fácil, abater a fera, que ousadamente desfilava naquele autêntico campo de tiro, sob o olhar inerte de duas longas filas de espingardas apontadas ao seu corpo. Por detrás daquelas duras paredes de madeira tosca, qualquer âmago aleivoso poderia tornar-se herói. Um indicador obediente, um estrondo de pólvora, um projétil atravessando um cano assente numa frincha estreita e… seria o fim da criatura má dos contos infantis. Contudo — fosse por medo, por falta de sangue frio, por hesitação, por paralisação dos movimentos ou… pelo respeito exalado por ousado animal selvagem, o último da sua espécie, que perpassava lenta e ostensivamente, de forma tão abnegada, tão à mercê dos ódios, das forças e das humanas fraquezas — ninguém ousou atentar contra a fera. Talvez alguns tivessem temido perder, com o assassinato do lobo, a última réstia de dignidade que lhes permitia encarar o seu próprio olhar no espelho e ainda sentir algum respeito; talvez outros, quiçá a maioria, tivessem apenas querido preservar o seu precioso alibi. Eram cobardes os adultos de Treason Town.
Estava estranhamente estranha aquela noite recém-nascida: o tempo parecia suspenso e a Lua, milagrosamente, não se movera. Parecia paciente, esperando o lobo.
Chegado ao fim da rua, o bicho bravio abeirou-se do pelourinho, alçou uma pata traseira, aqueceu-lhe a aspereza da base e retomou a sua estonteante galopada pelo escarpado peito montanhoso de Fearland. Atrás de si, Treason Town também pareceu regressar à vida, vomitando para a rua os seus habitantes, que preencheram o breu noturno com uma farta e prolongada saraivada de tiros aéreos e gritos despeitados.
Pouco depois, o silêncio caiu novamente sobre o burgo. Todos os olhares tinham sido subitamente atraídos para o rochedo mais alto, por cujo peito o lobo trepava, perto da exaustão. Viram-no alcançar o topo, desenhar-se perfeitamente diante da Lua e erguer-se para ela. Nesse instante o corpo celeste redobrou o brilho e inundou a Terra com um luar nunca visto. Parecia dia. Todos ficaram quedos, contemplativos e introspetivos. E já o astro ia alto, quando o silêncio foi quebrado pelas crianças, que apontavam exultantemente para a face cheia da Lua, onde — diziam — aparecera uma nova forma: a tatuagem de uma silhueta lupina.



O lobo nunca mais foi visto em Fearland. Para uns, morrera, para outros… partira apenas. Todavia, os adultos não o deixaram morrer no imaginário infantil de Treason Town, tentando gerar e perpetuar medos e ódios, descarregado sobre ele todos males, purgando nele as suas negras culpas. E acrescentaram a Lua ao seu vasto rol de maldições. No entanto apesar dessa educação, as crianças de Treason Town, no seu íntimo, em segredo, alimentavam uma admiração imensa por aquele lobo solitário, pela nobreza do seu porte, pela bravura que nunca viram nas suas humanas referências, que constantemente o esconjuravam e maldiziam. E quando a lua cheia beijava as alturas de Fearland, fosse da janela ou da rua, todas esperavam ansiosamente aquele momento mágico em que a sua lupina tatuagem coincidia com o mais alto rochedo da montanha, devolvendo, por momentos, o lobo ao seu velho e sólido trono. Acreditavam que aquele instante, aquele brevíssimo instante, despertava amores eternos.
As novas gerações de Treason Town acabaram por mudar radicalmente os topónimos. 

domingo, 16 de abril de 2017

O último lobo de Fearland



Só restava ele da numerosa alcateia que, outrora, dominara a temerosa montanha de Fearland. A maior parte dos seus pares fora definhando e morrendo paulatinamente, à medida que a caça fora rareando naquele habitat. Outros, por necessidade extrema, tinham-se aproximado demasiado da terra dos homens, acabando mortos, decapitados, embalsamados e exibidos para alimento do ego dos seus predadores. Alguns, atraídos por farejadas promessas de fartura, tinham partido em direção à mítica planície de Godland, em cujo coração estava o mais prodigioso bosque da Terra: Wonderwood.
Fearland, agreste e plena de estrias escarpadas, era como um gigantesco seio encimado por um enorme rochedo. Era ali que os habitantes de Treason Town — uma pequena cidade feita de casas de madeira, que ladeavam a única rua do burgo — viam diariamente o ascender da Lua na imensidão noturna. Mas também era ali que, invariavelmente, no preciso instante em que o astro começava a exibir o seu brilho e a sua redondez no céu, viam o único lobo de Fearland trepar até ao topo rochoso, esperar pacientemente o momento em que o corpo lunar ficava completamente suspenso no vão, e dar início a um delongado e plangente uivo, que parecia subir às alturas como um sinuoso fio de fumo saído de uma chaminé. Essa ode lupina só cessava quando a Lua já ia bem alta na negridão, com a distância expressa na sua decrescente forma, que, muito lentamente, se afastava no horizonte infinito. Nesse momento, o lobo descia pausadamente a aspereza do granítico mamilo de Fearland e mergulhava nas trevas, despertando o medo em Treason Town, cujos habitantes, conhecedores da escassez de caça — eles próprios a tinham gananciosa e desportivamente esgotado — temendo uma investida súbita da besta, se encerravam nos seus ventres amadeirados, espingardas prontas e estrategicamente colocadas. Mais tarde, à luz da candeia, cumprindo uma longeva tradição oral, semeavam, nas mentes dos mais novos, histórias terríveis de atrocidades cometidas pelas assassinas alcateias  que habitaram aquele perigoso lugar.
O último lobo de Fearland, apesar das ameaças humanas e da fome que, amiúde, era obrigado a suportar durante vários dias, mantinha a sua simples rotina de animal selvagem: de dia — sempre ousou caçar à luz do dia — farejava, catava, perseguia e tomava as presas necessárias à sua tão temida sobrevivência; à noite, tinha aquele mágico e intrigante encontro com a Lua, a sua efémera companheira, que nunca se atardava, a única luz de presença que visitava regularmente a sua solidão. Depois da sua misteriosa vocalização, recolhia ao seu fojo e dormitava até aos primeiros folhos da madrugada. Antes mesmo de o canto dos galos se alargar nos ares frescos do crepúsculo, já ele sondava, com os seus prodigiosos sentidos, todas as brisas matinais. Instantes depois, num relâmpago, fazia-se à sua incerta e dificultosa jornada. Como no seu instinto animal não cabiam amanhãs, encarava cada dia como se fosse o único, respondendo à vida com o profundo e poderoso apelo vindo das profundezas do seu ser. Era o que a Natureza determinara que fosse. Era, simplesmente. Contudo, também o encantamento diário pelo luminoso astro e a sua lenta partida eram diariamente sentidos como únicos e últimos, intuídos e sofridos como morte. Era, enfim, este o mundo do animal mais odiado e mais perseguido daquela região: o último lobo de Fearland.
Um dia, as contingências da predação forçaram-no a uma exaustiva busca, seguida de uma obsessiva e extenuante perseguição por territórios que não conhecia perfeitamente. Já sucumbia a tarde quando, por fim, cravou os dentes na presa que lhe garantiria a centelha da vida por mais alguns dias. Todavia, no momento em que ergueu o seu poderoso pescoço, com a vítima suspensa na boca, estacou como se tivesse sido subitamente petrificado. A Lua já insinuava brilhos e alores no azul morrente do céu, bem por detrás do seu imponente trono rochoso. Tinha de ser célere como o vento! O seu instinto ditava-lhe que corresse imediatamente para lá. No entanto, um perigoso abismo se abria no seu já vertiginoso caminho: Treason Town. Tinha-se desviado imprudentemente dos seus habituais trilhos. Só atravessando Treason Town poderia chegar a tempo de se encontrar face a face com o astro celeste, no mágico momento em que parecia pousar no seu alçado rochedo. E o seu instinto ordenava-lhe que fosse, que fosse sem demoras.


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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Páscoa Feliz!



Faço uma pequena pausa pascal. Mergulho em vários interiores.
Regresso no domingo à noite (entre o morto e o ressuscitado) com mais um naco de prosa poética (entre o banal e o literário de alguma qualidade): O último lobo de Fearland.
Entretanto, estimado leitor, desejo que tenhas uma Páscoa muito feliz!

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Um beijo

Como permaneço retrógrado e empedernido no tempo, continuo a preferir os que fazem amor, todos os tipos de amor, sem restrições. Nunca fui de modas.
Termino o dia como o inaugurei: com um poema. Este não é inédito, como o primeiro, mas vem muito a propósito. Pertence ao meu primeiro livro de poesia: Livro d’Água.

Gustav Klimt, O beijo (pormenor)

Um beijo

Que dizer-te
Que já não te tenha dito
Como dizer-te o que sinto
Se o que sinto
Não cabe num simples grito

Como dizer-te o que sinto
Que palavra
Gesto ou expressão
Se o que deveras sinto
É um doce labirinto
Onde sinto perder razão

Olhos nos olhos
Um olhar transparente
Olhos nos olhos
Um momento infinito
Olhos nos olhos
Um beijo eloquente
E tudo o que o peito sente
Fica escrito


Flávio Monte, Livro d’Água, 2010

Beijos


Celebra-se hoje o Dia Mundial do Beijo. Porém, como tudo nesta vida, também o beijo é multifacetado. Presumo, por isso, que beijos como os que a imagem abaixo ilustra também acabem indevidamente celebrados. Não precisam, pois estão muito na moda, e prometem durar. O primeiro faz (1984) anos, o segundo faz ânus, o terceiro faz anhos e o quarto faz amos.



Como permaneço empedernido no tempo, continuo a preferir os que fazem amor, todos os tipos de amor, sem restrições. Nunca fui de modas, nem conto ser. 
Este é meu (com pseudónimo literário) . Não é grande coisa, nem coisa grande, mas é genuíno e dado de boa vontade.



Palavras dolentes

Imagem retirada daqui.

Palavras dolentes
Eram aves, outrora, as palavras!
Aladas de vento, volitavam e partiam…
diziam e traziam primaveras,
beijos dados ao tempo,
que o tempo deveras consentia!
As palavras de outrora eram luz e dia!

São dolentes, agora, as andorinhas,
aves cativas do chão;
dizem e fazem silêncios,
silêncios daninhos,
incandescências que jazem na negridão!

As palavras presentes
são apenas penas de penas minhas,
sementes e espigas de searas de solidão!

                                      Luís Costa

terça-feira, 11 de abril de 2017

Folar preguiçovândalo





         INGREDIENTES E INSTRUMENTOS


ü Um, dois ou três ministros numéricos
ü Um quintal* de pais míopes
ü Um quintalejo* de setores tenros
ü Uma tonelada de alunos
ü Impunidade QB
ü Massa fina
ü Sal, pimenta, malagueta…
ü Açúcar, mel, geleia…
ü Um lagar
ü Um passador XXL
ü Um rolo da massa
ü Uma vara de diretores

MODO DE PREPARAÇÃO
Pegue nos ministros (criados em estufa são muito melhores), faça-lhes uma boa lavagem ao crânio, para tirar impurezas e desparasitar (repita este processo até o ingrediente ficar bem limpo; pode usar vinagre de cidra, que desinfeta e branqueia; seja meticuloso e parcimonioso, para não corroer os seus algoritmos, pois são eles os principais responsáveis pelo gostinho agridoce do seu prato) e deixe-os a escorrer na banca. Entretanto, pegue no rolo e passe-o suavemente sobre a massa até ela ficar fina. Quando estiver no ponto, estenda os ministros numa superfície lisa, cubra-os com a massa e deixe-os a legislar durante um, dois, ou três mandatos, de acordo com a opção inicial.
Enquanto os ministros legislam, polvilhe bem os olhos, as orelhas e os ouvidos dos pais com sal e pimenta (se gostar de sabores intensos, junte-lhes umas pitadas de malagueta moída). Seja generoso, pois são eles que vão fazer levedar os setores.
Pegue agora nos setores tenros, descasque-os completamente (verifique se ainda têm algum espinho e retire-o), desautorize-os bem desautorizados e deite-os no lagar (lavado, claro!). De seguida, pise-os muito bem (pés lavados, of course!) até eles ficarem bem moles. Quanto mais moles melhor. Finalmente, cubra-os muito bem com os pais temperados e deixe-os a acobardar o tempo que for necessário. Antes do próximo passo, verifique cuidadosamente se algum não acobardou completamente. Se tal acontecer, pegue na vara de diretores e use-a para remover o alimento rígido, porque será suficiente para estragar todo o cozinhado. Depois, desfaça-se dele. Pode dá-lo aos cães, que eles apreciam.
  Vá buscar a tonelada de alunos (quanto mais novos melhor) e junte-os num mega-agrupamento aviário. Esparja sobre eles açúcar, mel e geleia a contento. De seguida, cubra-os com uma boa camada de impunidade. Depois, passe-os a todos pelo passador XXL. Quanto mais cedo os alunos souberem que vão passar no XXL Accelerator, melhor.
Por fim, reúna todos os ingredientes num tabuleiro gigantesco e ponha-os a cozer em lume brando, durante nove anos. Terá é de recorrer a uma fundição, porque não há cozinha portuguesa que aguente tamanho folar.
Trabalhoso, mas… MUIIIIIIITO GOSTOSO! De comer e chorar mais!

* Antiga medida de peso.

domingo, 9 de abril de 2017

O meu poeta

Hoje, infelizmente, o meu tempo abriu falência. Vi-me, por isso, obrigado a pedir um empréstimo ao passado. Porém, em compensação, ofereço-vos dois textos. O primeiro (mais poético) já tem seis anos. O segundo, de cariz completamente diferente (“didático”), dediquei-o, há dois ou três meses atrás, aos alunos da minha única turma de sétimo ano. Os nomes próprios do primeiro são fictícios, os do segundo são reais.
O texto “de hoje”, que está na minha mente, em bruto, será publicado na terça-feira. Porquê? Porque é dia de Lua Cheia.



O MEU POETA


Ontem, as minhas turmas da manhã, todas de sétimo ano, fizeram teste. Dia místico para o professor-poeta.
Depois da leitura integral do conteúdo da prova, o mesmo manto de silêncio, que parecia encolhido no céu-da-boca da sala, desceu três vezes, sobre os três grupos, como em peça de três atos. Três vezes me sentei à secretária, para ligar o computador e dar vida à cadeia musical que preparara na minha velha retorta de pequeno alquimista: o violino da Sarah Chang, acariciando uma sinfonia de Bach; o piano de Keith Jarrett, soltando pétalas de rosa; um sereníssimo oceano musical de Mozart; várias brisas de Roy Todd… Fez-se paz no mundo.
Saudade do silêncio! Saudade do meu outeiro pedagógico! Saudade de soltar o olhar dos meus pastores pela jovem paisagem verdejante e quieta! Finalmente, o tão ansiado momento! Deixei entrar o poeta.
Alado se tornou o tempo. Atei a razão ao meu cajado cravado no chão, e desarvorei, voei com ele, criançamente intuitivo. Voei… E o tempo fez-se-me primeiro dia: aula de apresentação. Entraram as crianças, trajando sinestesias, humanizando o meu manso rebanho.
Ao fundo, os olhos da Gisela, descaídos sobre a mesa, seguiam o serpenteio da sua pena, que contava à folha o que ouvira ao coração. Eram tristes os seus olhos, dois órfãos que, de vez em quando, afilhavam para mim e me rasgavam o peito. Serena por fora, em lava por dentro, a Gisela estava-me chorando a vida.
Um pouco mais perto, junto à janela, as botas puídas do Tiago, cruzando e descruzando sem parar, lutavam com o frio dos seus pés inseguros. A camisola interior, branqueando até à palma da mão, que não escrevia, escreveu-me tudo o que o seu dono menino — rosto pálido, olhar trémulo — não pôde.
Mesmo à minha frente, a Cátia: um girassol. As suas pétalas loiravam sobre uma aveludada folhagem de marca. Parecia que as teclas do piano tocavam para ela. Parecia que a música se ia caligrafando no confiante movimento das suas mãos; que o teste fora feito para ela; que o próprio mundo se fizera para ela.
Junto à porta… mais ao centro… no canto oposto da sala… os meus alunos foram-se-me desoutrando, um a um, como meninos de cristal acabados de nascer. E o meu olhar rasgou-se. Bebi as dicotomias da vida, e souberam-me a fel. Apeteceu-me bater no mundo!
De súbito, uma sinistra figura invadiu o meu pasto. Na sua mão macilenta, balanceava uma lanterna apagada, que se abriu e soltou corvos famintos de amanhãs. Fez-se breu num instante, e o tempo desasou. Fiquei a sós com a noite. Fui à janela e encarei-a, criançamente, como se ela fosse o meu poeta. Mas ela baixou o seu olhar amofinado, e contraiu o ventre como se fosse abortar um dia sem sol e sem fim. Depois soluçou, e acabou por verter copiosamente o que eu não pude.


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AVENTURA NO PLANETA METATEXTO
Aos meus alunos do 7.º F


Entreolhámo-nos, atónitos, quando o professor, no início de mais uma maratona pedagógica, nos ditou o seguinte sumário: “Aventura no planeta Metatexto”.
— Só pode estar a brincar!
— O setor enganou-se na turma!
— Isto mais parece o título de um filme de ficção científica!
— Mas… é mesmo para escrever?!
Momentos depois, já todos o acompanhávamos, incrédulos, naquela inesperada viagem. E ainda mal nos tínhamos refeito da partida, já ele anunciava a chegada:
— Estamos na galáxia Via Língua e vamos preparar-nos para metatextizar.
— ME-TA-TEX-TI-ZAR? — perguntou o Diogo, intrigado.
— Ó meu, não vês que vamos pousar no tal planeta Metatexto? — retorquiu o João, com ar sabichão.
Subitamente, ergueu-se à nossa frente uma paisagem retilínea, cortada por inúmeras ruas paralelas percorridas por muitos e variados transeuntes, que pareciam não ter percebido ainda a nossa presença.
— Mas que civilização tão esquisita! — observou o António, na sua característica pronúncia minhota.
— Tens toda a razão — concordou o professor — mas, no fundo, é muito parecida com a nossa. Os habitantes deste planeta chamam-se PALAVRAS e também estão divididos em classes e grupos sociais.
— As palavras, as palavrinhas e os palavrões — gracejou o Guilherme, deixando bem evidente o seu sentido de humor.
O professor sorriu e continuou:
— Estais a ver, além, aqueles seres a trabalhar? Pertencem à classe VERBO. A vida deste planeta está nas suas mãos. São eles que o fazem mexer.
Na realidade, era impressionante a ação que eles desenvolviam. Todos concordámos que eram muito semelhantes aos operários do nosso mundo.
— E aqueles ali, que parecem estar a dar ordens aos verbos? — perguntou a Isabel.
— Devem pertencer à classe dos chefes — atalhou a Mariana.
— Acertaste em cheio. São os NOMES: são eles que decidem e orientam a ação dos verbos. São uma espécie de presidentes ou ministros e, como tal, também têm os seus representantes para os momentos em que não querem, não podem ou não devem estar presentes: os PRONOMES. Esses adoram substituir os nomes e fazem-no com tal habilidade, que se dividem em subclasses, conforme as ocasiões: os pessoais, para os assuntos pessoais; os possessivos, para as tomadas de posse; os demonstrativos, para as designações…
A Luísa, que desde o início da viagem se mantivera calada, mas muito observadora, resolveu quebrar o seu silêncio curioso:
— Pelo que vejo, aqui também não se dispensa o trabalho dos criados!
Os nossos olhos fixaram o professor.
— Tens uma certa razão. São uma espécie de ajudantes, de adjuntos. Aqueles que acompanham os nomes são os ADJETIVOS e a sua função é muito importante. Eles cuidam da aparência dos nomes: tornam-nos interessantes, simpáticos, alegres, sérios… Embora também sirvam outros senhores, os criados dos verbos — aqueles seres ali — são os ADVÉRBIOS: deles depende o ritmo e o resultado do trabalho dos seus patrões.
— Pois é  — concluiu o Luís —, por isso é que aquele verbo está ali a trabalhar apressadamente e aquele além caminha lentamente ao lado do outro, que canta desafinadamente.
— Evidentemente!  — gracejou o André.
De repente, algo nos cortou a respiração: uma espécie de robôs-soldado, de cabeça para baixo, avistaram-nos e vieram colocar-se à nossa frente, exclamando:
— Olha!!!
— São Palavroides!
— Ah!
Pouco depois, chegaram outros, também de cabeça para baixo, mas mais rechonchudos, olhando-nos com ar inquisidor:
— Quem sois vós?
— O que fazeis aqui?
— De que planeta sois?
A situação parecia querer complicar-se, mas o professor logo nos tranquilizou, dizendo-nos que aqueles robôs eram completamente inofensivos.
— Aqueles ali são os PONTOS DE EXCLAMAÇÃO: admiram-se com tudo o que veem e são muito sentimentais. Estes aqui apenas estão programados para fazer perguntas, interrogar os estranhos: são os PONTOS DE INTERROGAÇÃO.
— E eu sou a D.ª VÍRGULA — disse, vaidosamente, uma extraterrestre elegante e curvilínea. — Dispenso apresentações no meu planeta, pois sou a mais solicitada. Comigo, o trânsito textual flui calma e ordenadamente, porque obrigo os transeuntes a fazerem pequenas pausas para respirar, evitando assim os engarrafamentos e as confusões. Entre outras coisas, intrometo-me sempre nas enumerações, quando se chama ou designa alguém, antes das senhoras adversativas  — que são do contra —, mas nunca separo os elementos principais das frases.
— O que são frases?  — perguntou o Bernardo à D.ª Vírgula.
— São estas vias que aqui vês. Estão agrupadas em parágrafos. Estes, por sua vez, formam este maravilhoso planeta em que vivemos.
— São como as nossas ruas, bairros e cidades — disse a Margarida.
— Deve ser! — exclamou a orgulhosa senhora, olhando a jovem de soslaio.
— E aquele par de gorduchos que vêm ali? — perguntei eu, para fingir algum interesse.
— Onde? Ah! São dois irmãos gémeos que andam sempre juntos: os DOIS PONTOS — respondeu o professor. — Sempre que é necessário explicar algo melhor, apresentar um orador, são eles que resolvem o problema.
— Espero que esclareçam bem esta situação, porque os pontos de interrogação não nos largam! — adiantou, intranquila, a Maria João.
— Têm a palavra os extrametatextes — disseram os gémeos, em uníssono.
— Somos textonautas do planeta André Soares e viemos aqui para conhecer os vossos exemplares — gracejou o Duarte.
— Ó setor, vem ali um robô, semelhante a estes dois irmãos, decidido e arrogante, com ar de quem pretende pôr fim à nossa viagem! — alertou a Rita, já aflita.
Ainda o professor não se tinha apercebido da sua presença, já ele estava ali, rígido, imóvel e autoritário:
— Façam o favor de abandonar imediatamente o planeta Metatexto.
— Mas nós ainda agora acabámos de chegar! — lamentou o professor. —  Somos…
— Não quero saber. Eu não pergunto nada, isso é com estes meus colegas curiosos. O meu dever é acabar com sermões, palestras, conversas e discussões. Sou o PONTO FINAL.