domingo, 19 de março de 2017

Abaixo-assassinado



Quarta-feira, última aula da manhã.
O professor, dando corpo ao seu hábito, já estava na sala quando tocou. Pouco depois, os alunos começaram a chegar, em pequenos grupos, como sempre. Contudo, daquela vez, havia neles como que um grito que quebrava a típica rotina: vinham agitados, esbracejavam, falavam alto, demoravam a sentar-se…
Num primeiro impulso, o docente quase ergueu o seu autoritário vozeirão, mas logo o instinto lhe ordenou que o refreasse. Algo muito anómalo estava a municiar aquela estranha indisciplina dos catraios. Indagou.
— Então o setor não sabe o que aconteceu? Os pais de um aluno do sexto ano foram à sala de aula e a mãe dele bateu na professora! Agarrou-a pelos cabelos, abanou-lhe a cabeça muitas vezes e feriu-a na cara com uma esferográfica!
O professor teve de se compartimentar para manter o controlo: enquanto a figura externa tentava, o mais friamente possível, serenar os catraios e salvar a aula, a alma, já no cume da serra, descarregava, num uivo de revolta, toda a raiva que subitamente a inundara.
O almoço não comido foi substituído por um tufão de lembranças: muitos milhares de palavras inutilmente dadas ao vento, muitos alertas vãos, eternos retornos, risos amarelos de escárnio e ironia… E tudo tão fatalmente consumado! Todavia, era urgente reagir!
Como naquela tarde todos os grupos disciplinares reuniam, o incorrigível acendedor de candeeiros decidiu ir, de sala em sala, dar alma às almas em quieto e temeroso desassossego. A reação não podia ter sido aparentemente melhor.
— Fazes tu o abaixo-assinado?
Era óbvia a resposta. Ele já o tinha configurado na memória. Rezava assim:

«Excelentíssima Senhora Diretora,
Na pretérita quarta-feira, dia 7 de dezembro, uma professora desta escola foi violentamente agredida, diante dos seus alunos, por uma encarregada de educação, que, ao arrepio das mais elementares normas do respeito e do Direito, irrompeu pelos espaços pedagógicos restritos à comunidade escolar, para consumar o seu repugnante propósito.
Na verdade, a extensão e a gravidade do ato não se confinam à agressão física e psicológica a uma docente desta instituição. Em bom rigor, todo o corpo docente e não docente foi violentamente agredido e humilhado: na sua autoridade, na sua integridade profissional, na sua imagem de referência perante as nossas crianças, no sentimento de segurança, na imprescindível relação de confiança com a comunidade que, de forma tão generosa, tem servido e continuará a servir. Em bom rigor, todos os alunos foram violentados: aqueles que ouviram, repetidamente, a narração destes factos deploráveis, os que assistiram a parte desta inadmissível ocorrência e, com especial contundência, aqueles que presenciaram, de muito perto, toda a brutalidade exercida sobre a sua professora. Em bom rigor, também todos os pais e encarregados de educação acabaram por ser agredidos, pois — estamos convictos — não são estes os valores que querem transmitir aos seus filhos e educandos, não é esta a escola que querem para eles nem é este o caminho que esperam vê-los seguir.
Por tudo isto, Senhora Diretora, os docentes abaixo assinados entendem ser seu dever moral traduzir em atos o indizível: a dor e o luto que têm na alma. Assim, em sinal de veemente repúdio de atos desta índole, que não mancham somente quem os pratica nem ferem apenas quem os sofre diretamente, na próxima segunda-feira, dia 12 de dezembro comparecerão e permanecerão na escola, no seu horário de trabalho, mas não cumprirão o serviço letivo previsto. É imperioso e urgente que toda a comunidade partilhe esta dor, que reflita sobre o que aconteceu e se demarque, definitivamente, destes degradantes exemplos, porque a Escola é, por natureza, inverso da barbárie. Sugerem ainda a Vossa Excelência o cancelamento de todas as atividades de Natal e a remoção de todos os enfeites alusivos à quadra, pois também o espírito natalício, deste ano, foi irremediavelmente enegrecido.»

Como na quinta-feira foi feriado — Dia da Imaculada Conceição — o documento só foi dado a assinar no dia seguinte. Da esmagadora adesão inicial, sobraram apenas quarenta e um signatários, que ao longo do dia se converteram em apenas trinta e nove assinaturas, visto que duas foram arrependidamente rasuradas. Eram, pois, trinta e nove os mestres dispostos a deixar bem vincada a sua indignação perante o sucedido.
No dia D, apenas o promotor da ação e uma colega sua mantiveram a posição assumida. Os restantes… foram cumprir a sua mormalíssima e imaculada rotina.   Os líricos… ali ficaram, na sala de professores, matinal e vespertinamente, desfolhando conversas, à espera da fatídica falta injustificada, que tanto medo causara aos restantes educadores dos homens e mulheres de amanhã.
No morrer do dia, o subversor regressou ao seu fojo com um pouco mais de chumbo misantropo no coração. Pousou a pasta e foi ao terraço beber alturas. A Lua já redondava no vão negro. Olhou-a nos olhos, à procura de uma resposta. Pouco depois, cismando nela, o rosto alongou-se-lhe num proeminente focinho peludo, as orelhas triangularam-se para o céu, os membros desceram ao chão e transformaram-se em patas, a cauda hirsuta completou a metamorfose. Pareceu-lhe então que o solitário corpo celeste o chamava. Correu até ao cimo da montanha mais alta, subiu ao penedo maior e… uivou incessantemente para o astro inerte, que continuou o seu indiferente rumo, no noturno silêncio dezembrino.
Só a manhã o ouviu. Clementemente, veio pôr termo ao seu furor. Trazia nas mãos rosadas uma calorosa chávena de luz. Era um novo dia.




PS – As razões do "recuo" ficam para o próximo “fascículo”.

6 comentários:

  1. É muito revelador, Anabela! E ainda falta aqui a esclarecedora filigrana dos "entretantos".

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  2. Atroz a cumplicidade da barbárie dos "mandantes". A realidade demonstra também o dispersar das forças que um dia já tivemos.

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  3. Atrozes também alguns exemplos que vamos dando.

    Ainda faltam alguns porquês nesta história, Delfim. Serão contados (dignamente contados).

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  4. Não sei o que é mais triste, se a agressão se a indigna e nojenta submissão dos covardes. Infelizmente, as escolas estão cheias de oportunismo e medo.

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  5. A agressão é absolutamente inadmissível, Luís! Relativamente à "desmobilização" dos professores... podemos dizer que este caso particular é bem representativo do que acontece a nível geral. Contudo, a bem da verdade, melhor será esperar pelo que falta narrar.

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